Futuro governo: Não é "essencial haver acordo escrito", diz Marcelo

Cavaco exigiu que Costa tivesse texto assinado com partidos de esquerda para dar posse ao governo do PS. Marcelo invoca a sua experiência para afastar esse cenário, à esquerda ou à direita

O Presidente da República dispensa um acordo escrito para que se estabeleça uma governação entre vários partidos, à esquerda ou à direita. Marcelo Rebelo de Sousa foi claro na resposta que deu numa entrevista de mais de 60 minutos ao jornalista Daniel Oliveira, para o seu programa Perguntar Não Ofende , que ficou esta quinta-feira disponível na página do podcast.

"Não me parece essencial haver acordo escrito, por uma questão de princípio", atirou, em sentido contrário aquele que Cavaco Silva defendeu, quando ainda presidente deu posse ao governo socialista de António Costa, com apoio parlamentar do BE, PCP e PEV. "Mas também não me parece essencial haver acordo escrito porque as dúvidas que se poderiam formular sobre o acordo escrito acabaram por ser resolvidas pela prática da fórmula política", responde, ele que quando foi líder do PSD durante o governo minoritário do socialista António Guterres viabilizou três orçamentos do Estado.

A geringonça "afirmou-se, sobreviveu, conviveu com realidades que exigiam o acordo - Aliança Atlântica e União Europeia - e ficou provado que os partidos apoiantes do Governo não questionaram a política do Governo nesses pontos", exemplificou Marcelo.

Olhando para a atual solução governativa como algo que perdura, apesar das divergências existentes, e que o Presidente atribui à aproximação de eleições, Marcelo relativiza o Orçamento do Estado que aí vem e que está a ser negociado à esquerda. "Quase se diria que o OE já não importa politicamente, porque é dado como garantido. A Europa ajuda a isso: dentro de semanas os partidos europeus vão reunir-se para escolher os candidatos à Comissão Europeia e aí se verá se há novas coligações a nível europeu."

Sobre a direita, o Presidente da República evita mais comentários. Regista que há hoje um tempo político muito acelerado que não se compadece com fechar as portas para férias ("até as férias que existiam deixaram de existir"), como fez Rui Rio. Mas o exemplo de Marcelo não foi esse. "Eu vi a senhora Merkel interromper quatro vezes as férias para cimeiras", disse. Podia também ter falado de si.

Sem quebrar o tabu de uma eventual recandidatura - que colocou na mesa quando do discurso duro que dirigiu ao Governo depois dos incêndios em outubro e que levou à demissão da então ministra da Administração Interna - Marcelo Rebelo de Sousa sempre foi dizendo que é favorável à limitação de mandatos. "Esse peso de consciência que eu tinha em relação aos incêndios deixa de ter lógica na ponderação de razões que eu procederei quando pensar na recandidatura", começou por dizer sobre o facto de ter colocado uma eventual falha do Estado a este nível como fator decisivo para se recandidatar.

"Por uma questão de consciência [fiz esse discurso]. Eu quis dizer que, quando o poder político falha nesta dimensão, porque falhou, o Presidente é corresponsável, não pertence a outro mundo de eleitos que não tem a ver com isto. E vai fazer tudo para que no futuro não se repita." Caso contrário, "eu não tinha cara para me recandidatar", disse.

"A melhor maneira de combater o populismo é ser-se popular sem ser populista, sabendo que há limites inultrapassáveis"

Esta limitação aplica-se então ao cargo de procurador-geral da República, quis saber o jornalista e comentador. Marcelo recusou responder, para não ser interpretado como uma resposta sobre a recondução de Joana Marques Vidal. "Em relação a mandatos autárquicos, sou mais radical do que a lei. Eu fiz dois mandatos e terminei", acrescentou, mas sem nunca abrir o jogo sobre o futuro da atual procuradora.

O Presidente que é rei das selfies e dos afetos, recusou que possa ser visto como um Trump simpático. "Eu sou como sou e não mudei pelo facto de ter sido eleito presidente", diz de si. "Sabiam que eu ia ser assim, para bem e para mal." "O que acontece em muitos líderes mundiais é que há uma componente mediática levada ao extremo mas sem substância. É essa a diferença. Neste tempo, a melhor maneira de combater o populismo é ser-se popular sem ser populista, sabendo que há limites inultrapassáveis. Ocupando esse espaço de maneira que não possa ser ocupado por outros."

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