EUA e China devem resolver guerra comercial "sem meter Portugal ao barulho"

Embaixador Martins da Cruz realça importância das "relações especiais e históricas" de Portugal com Pequim, "que mais ninguém tem".

Portugal "é aliado e precisa dos EUA" para a sua defesa, "mas tem uma relação histórica especial com a China", pelo que "os EUA devem resolver os problemas que têm" com Pequim "sem meter Portugal ao barulho", afirma ao DN o embaixador Martins da Cruz.

Ex-chefe da diplomacia portuguesa e antigo embaixador de Portugal junto da NATO, atlantista assumido, António Martins da Cruz vê como natural a posição do embaixador dos EUA em Portugal - em entrevista publicada na sexta-feira pelo Jornal Económico - de anunciar que Washington bloqueará a OPA chinesa sobre a EDP.

O alerta do embaixador norte-americano, George Glass, segue-se à recente presença em Lisboa do presidente do órgão regulador das comunicações (FCC) nos EUA, Ajit Pai, a fim de pressionar Portugal a não utilizar a tecnologia chinesa - da Huawey - nas suas redes 5G.

Em pano de fundo está a guerra comercial entre os EUA e a China, desencadeada pelo presidente Donald Trump e no âmbito da qual a administração norte-americana - apesar da reduzida dimensão de Portugal nesse tabuleiro - tenta condicionar as decisões portuguesas.

Martins da Cruz diz ser necessário "distinguir o caso da EDP" dos outros investimentos chineses em Portugal: "Entendo a posição dos EUA" e que o regulador norte-americano "imponha restrições aos ativos" que a EDP tem nos EUA, mas no caso das redes 5G "aparentemente ainda não demonstraram quais são os riscos de segurança" que alegam existir - e que o regulador português, Anacom, "diz que não há".

"Pode ser que haja razões de segurança, mas o que parece é que há sobretudo razões comerciais" dos EUA na questão das redes 5G, desde logo porque "ainda não vimos qualquer companhia norte-americana propor às empresas portuguesas uma tecnologia pelas condições que a Huawey propõe", enfatiza o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.

No caso da oposição dos EUA à OPA chinesa sobre a elétrica portuguesa, Martins da Cruz mostra-se convicto de que "a própria EDP já sabia isso" e que a multinacional China Three Gorges "já se resignou a essa realidade".

Martins da Cruz, lembrando que foi a troika - em que "dois pilares eram da UE - a "obrigar Portugal a vender a EDP" e que a candidata chinesa "ofereceu melhores condições" do que a concorrente alemã, insiste que "não foi surpresa os EUA dizerem não" à OPA lançada em maio de 2018 e que mesmo "os mercados já intuíam isso há largos meses".

Agora, no caso das novas redes tecnológicas e às pressões que também na Europa se fazem contra a solução da Huawey, Martins da Cruz observa: "Os portugueses são europeus bem-comportados", mas Lisboa "tem relações históricas e especiais com a China que mais ninguém tem."

E sendo Portugal "provavelmente o país europeu com a economia mais aberta", Lisboa "tem de exportar" e a China é um mercado central - e precisa de atrair investimento estrangeiro "para crescer", o que inclui o de Pequim, conclui o embaixador.

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