El País diz que Chega segue estratégia de Vox e Trump e chama-lhe "ultra"

Diário espanhol sublinha que André Ventura está a tentar tornar-se relevante para a governabilidade à direita, comparando-lhe a estratégia política com a do Vox e a comunicacional com a de Trump. Diz porém que "pouco se sabe das propostas do Chega" - como se não houvesse um programa.

"O deputado do Chega procura captar votos nas presidenciais para crescer de modo a fazer-se necessário à governabilidade à direita, como fez o Vox [partido de extrema-direita espanhol]", anuncia o diário espanhol El Pais, num artigo sobre André Ventura publicado no final desta sexta-feira.

Apesar de considerar que o propósito de Ventura - disputar uma segunda volta das presidenciais com Marcelo Rebelo de Sousa - é "quase impossível", devido ao que descreve como a extrema popularidade do incumbente ("poucos países querem tanto ao seu presidente como Portugal"), o texto releva o objetivo do líder demissionário do Chega de usar a campanha presidencial para ganhar mais visibilidade, usando-a como antecâmara das legislativas que espera sejam antecipadas.

"O Chega participa nas presidenciais com os olhos postos numas hipotéticas legislativas. Nos seus cálculos conta com que o afundamento da economia, com uma queda de 16,5% no segundo trimestre deste ano, conduza a eleições antecipadas nas quais todo o espectro da direita saia beneficiado. Tendo cerca de 7% das intenções de voto tanto para as presidenciais como para umas hipotéticas legislativas, o seu plano é conseguir pelos menos 10% para se tornar num ator a ter em conta na próxima legislatura, sendo tomado em consideração na formação de um eventual governo com PSD", analisa o El País.

Piscar de olho de Rio

Frisando que o líder do PSD, Rui Rio, "piscou na semana passada o olho ao Chega em relação a uma possível coligação se o partido adotar posições mais moderadas", o diário lembra que, como Ventura, o presidente dos sociais-democratas negou a existência de racismo em Portugal, levando o líder do Chega a apelar a que se lhe juntasse na manifestação de domingo 2 de agosto, que convocou em resposta às homenagens antirracistas ao ator negro Bruno Candé, assassinado a 25 de julho, com quatro tiros de pistola, por um idoso branco - o qual teria dirigido insultos racistas à vítima e alegado um desentendimento a propósito da respetiva cadela como motivo do crime. Mas, conclui o artigo, "Rio não apareceu, apesar de o terem feitos outros membros do PSD."

Na verdade, só foi identificada a presença de um manifestante ligado ao PSD - empunhando uma bandeira deste partido. Também uma bandeira no CDS/PP surgiu na manifestação, que o El País diz ter juntado "umas duas centenas de pessoas" e que terminou na Praça do Município, com discursos da atriz Maria Vieira e de Ventura.

Sobre esta estratégia do PSD face ao Chega, o jornal cita o politólogo André Freire, que esteve em 2015 ligado à coligação de esquerda Tempo de Avançar (a qual incluía o partido Livre): "Deixar entrar a direita radical nos governos, como fez o Partido Popular espanhol com o Vox na Câmara de Madrid, à espera de que assim esta modere a sua posição, é muito arriscada. O que temos visto, num panorama mais geral, é que o resultado tem sido o oposto, com a direita tradicional a radicalizar-se. O PSD está muito mais ao centro que o PP mas abre assim a possibilidade de que a polarização do sistema político ocorra."

Número 2 em movimento violento de extrema-direita

Mencionando o propósito de Ventura de ceder o seu assento parlamentar, durante a campanha presidencial, ao número dois da lista por Lisboa - Diogo Pacheco de Amorim, que tem sido referido como seu ideólogo e que é um dos representantes da velha extrema-direita portuguesa, tendo pertencido à sua resistência armada/bombista pós-25 de abril, o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal), ao qual foram atribuídos ataques a sedes do PCP e UDP e mortes como a do Padre Max - o El País baseia-se na investigação da revista Visão para afirmar que o líder do Chega tem andado em roadshow pelo país, em reuniões privadas com "destacados empresários interessados em conhecer em primeira mão os projetos do deputado ultra, de cujas propostas pouco se conhece além do seu discurso anticorrupção, dos ataques a minorias e propostas populistas como a da castração química de pedófilos."

Na verdade, sabe-se bastante mais que isso das propostas políticas de Ventura e do Chega, já que o partido tem um programa. O qual prescreve o fim do Serviço Nacional de Saúde e do ministério da Educação - com a "entrega" das escolas públicas "a quem nelas demonstrasse interesse" - , uma taxa única de IRS, ou seja, o fim da progressividade deste imposto, assim como a "flexibilização" dos contratos de trabalho, acabando com o que refere como uma "infinidade de limites jurídicos à fundamental liberdade de contratar entre partes, a pretexto de defesa 'da parte mais fraca'".

Programa "ia ser clarificado" mas ficou igual

Recorde-se porém que Ventura anunciou em dezembro ao DN, depois de comentadores terem chamado a atenção para o facto de o programa do Chega propor a destruição do Estado social, "uma clarificação em sentido inverso" do mesmo, "para que não haja duvida de que o Chega e o presidente do Chega estarão sempre ao lado e na defesa do SNS e da escola pública."

Na altura, Ventura disse haver "aspetos do programa que não estão clarificados", sendo certo que este não podia ser mais claro ao estatuir: "Defende-se o afastamento decidido do modelo do Estado Social e do regresso ao Estado Arbitral, ou seja: que ao Estado não compete dar ou retirar, mas arbitrar. Ao Estado não compete tirar aos ricos para dar aos pobres, mas criar as condições para que todos possam ser mais ricos. "

Assim, diz o Chega, "ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam esses serviços de Educação ou de Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte"; "o Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde", devendo "promover a gestão privada dos hospitais públicos, com demonstração pública do benefício obtido e redução de custos para o contribuinte, invertendo a política que o atual Governo tem vindo a levar a cabo de reversão da gestão privada dos hospitais públicos."

O princípio consagrado, para o Chega, é pois "o do utilizador-pagador, ou seja, quem usufrui de bens ou serviços, qualquer que seja o seu produtor ou prestador, terá de os pagar, salvaguardando, mais uma vez se sublinha, os casos de absoluta, óbvia e provada incapacidade para uma normal subsistência". Oito meses após o anúncio da "clarificação", porém, o programa mantém exatamente as mesma propostas contrárias ao SNS e à escola pública e que Ventura não conseguiu defender nem explicar numa longa entrevista à Rádio Observador, em março.

Apesar de não mostrar conhecimento do verdadeiro - e pouco debatido - programa político do Chega, o El País reconhece que a estratégia comunicacional do partido, que é a do seu líder e único deputado, "recorda a do presidente dos EUA, Donald Trump. Ventura usa tiradas explosivas que depois matiza, desdenha ou contradiz diretamente." E dá alguns exemplos recentes desses "malabarismos", sobretudo relacionados com casos identificados como racismo, da morte do americano negro George Floyd às mãos da policia, em junho, à de Bruno Candé em Portugal.

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