Costa acusa Rio de ter usado debate orçamental para fazer campanha no PSD

O primeiro-ministro acusou o presidente do PSD de ter utilizado o debate orçamental como instrumento da sua "campanha eleitoral interna" e considerou mesmo que os sociais-democratas protagonizaram "cenas patéticas" na questão do IVA da eletricidade.

António Costa fez estas críticas diretas a Rui Rio após a proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2020 ter sido aprovada em votação final global apenas com os votos favoráveis do PS, as abstenções do Bloco de Esquerda, PCP, PAN, PEV e deputada Joacine Katar Moreira, e os votos contra do PSD, CDS, Iniciativa Liberal e Chega.

"É manifesto que o doutor Rui Rio foi utilizando as sucessivas etapas deste debate orçamental como um instrumento da sua campanha eleitoral. Já tinha sido assim no debate na generalidade e culminou nestas cenas patéticas a que assistimos nos últimos dias de avanços e recuos absolutamente irresponsáveis em matéria de IVA da eletricidade", acusou o primeiro-ministro.

Essa linha, segundo António Costa, foi usada por Rui Rio "seguramente para poder tentar exibi-la como uma grande atuação política no congresso deste fim de semana" do PSD em Viana do Castelo.

"Agora, com toda a franqueza, quem quer fazer política tem de estar na política com responsabilidade. Não podemos estar a fazer política para a bancada, um Orçamento do Estado não é propriamente um outdoor, onde se afixam promessas eleitorais, devendo ser antes um instrumento de responsabilidade", contrapôs.

António Costa falava na Assembleia da República, depois de a proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2020 ter sido aprovada, tendo ao seu lado o ministro de Estado e das Finanças, Mário Centeno, e o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro.

O primeiro-ministro frisou que os "parceiros naturais" do Governo socialista estão à esquerda do PS, mas considerou que "dramatizaram excessivamente algumas perdas eleitorais" nas últimas legislativas e erraram na análise sobre a vontade dos portugueses.

Questionado sobre a saúde da relação política entre o PS a as forças à sua esquerda, que desta vez optaram pela abstenção (e não pelo voto favorável) para a viabilização da proposta orçamental, o líder do executivo começou por referir que Bloco de Esquerda e PCP "fizeram toda a última campanha eleitoral com o objetivo de impedir uma maioria absoluta" dos socialistas.

Depois, reconheceu diferenças na relação atual do PS com o BE e PCP face à anterior legislatura e situou as causas nos resultados das últimas eleições.

Para António Costa, face aos resultados verificados nas últimas eleições legislativas, Bloco de Esquerda e PCP poderão não ter feito a análise política mais correta sobre a vontade manifestada pelos portugueses.

"Desde a noite das eleições não tive dúvidas sobre o que significavam os resultados eleitorais, com os portugueses a dizer que desejavam que a geringonça continuasse agora com um PS mais forte. Mas acho que os nossos parceiros dramatizaram excessivamente algumas perdas conjunturais que terão registado e interpretaram erradamente com uma vontade dos portugueses de não darem continuidade à geringonça, ou de que esta solução política lhes tivesse sido prejudicial. Mas essa não é de todo em todo a nossa análise", contrapôs.

Pelo contrário, segundo António Costa, nas últimas eleições legislativas, "a direita teve a maior derrota eleitoral de sempre, pulverizou-se e está hoje mais fraca - e isso foi fruto do sucesso da governação dos últimos quatro anos".

"Os portugueses desejam continuidade da governação dos últimos quatro anos e que este quinto Orçamento confirma isso", defendeu.

Perante os jornalistas, António Costa também recusou acusações de que o PS e o seu Governo estão agora nesta legislatura menos abertos ao diálogo político.

"Sempre dissemos que, com ou sem maioria absoluta, iríamos negociar - e assim temos feito, já que tanto o programa do Governo, como este Orçamento após a especialidade, apresentam diferenças resultantes das negociações com o Bloco de Esquerda, PCP, PAN e Livre. Nós não vamos andar aqui nesta legislatura numa lógica de ziguezague à procura de quem quer casar com a carochinha", advertiu.

Neste ponto, o primeiro-ministro salientou que "há um programa do Governo que todos conhecem".

"E temos parceiros que são os nossos parceiros naturais. Os nossos parceiros naturais estão à esquerda e não em outro lado", acentuou, antes de voltar a rejeitar uma lógica de "Bloco Central" no país - PS/PSD.

Neste ponto, o primeiro-ministro reafirmou a sua ideia de que a democracia portuguesa "ganha muito em ter soluções políticas devidamente ancoradas à esquerda com um Governo polarizado pelo PS e uma alternativa polarizada à direita pelo PSD".

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG