Ricardo Salgado: "Não me perguntaram nada sobre Sócrates"

Ricardo Salgado deixou tribunal sem falar sobre Sócrates ou Carlos Santos Silva. Perante o juiz Ivo Rosa diz que esclareceu a "relação contratual com Zeinal Bava".

O antigo presidente do Grupo Espírito Santo só falou sobre o contrato que assinou com o antigo administrador da Portugal Telecom, Zeinal Bava, durante o depoimento que prestou na tarde desta segunda-feira perante o juiz Ivo Rosa.

Ricardo Salgado esteve 1.45 horas a ser ouvido pelo magistrado que lidera a fase de instrução do processo Marquês - em que 19 pessoas, entre elas o antigo primeiro ministro José Sócrates, e nove empresas são acusadas de vários crimes de índole económico financeira - e deixou o Tribunal Central de Instrução Criminal garantindo que tinha esclarecido o teor dessa relação com o antigo gestor a quem entregou 25,2 milhões de euros.

O ex-banqueiro chegou às 13.30 ao tribunal, acompanhado pelo advogado, Francisco Proença de Carvalho, para a diligência marcada para as 14.00 e saiu às 15.45.

Aos jornalistas disse ter confirmado ao magistrado a entrega do dinheiro a Zeinal Bava numa relação que se tinha iniciado em 2006, mas que só foi colocada num contrato em 2010. O dinheiro foi entregue ao gestor em três parcelas: 6,7, 8,5 e 10 milhões de euros. E tinha como objetivo a compra de ações da Portugal Telecom.

Ricardo Salgado frisou não existir "discrepância" entre as suas declarações e as de Bava - que na semana passada confirmou o teor do compromisso nas declarações perante Ivo Rosa - e que respondeu "a todas as perguntas do juiz [sobre esse tema]".

Não falou foi sobre José Sócrates e Carlos Santos Silva, também arguidos no processo e que, no caso do ex-governante a acusação diz ter recebido 34 milhões de euros do Grupo GES entre 2006 e 2015. "Não me perguntaram nada sobre Sócrates e nem sequer ouvi falar desse nome [Carlos Santos Silva]", salientou o antigo presidente do BES

Antes de ser interrompido pelo advogado, Ricardo Salgado ainda comentou as acusações de corrupção: "Já disse várias vezes que nunca corrompi ninguém. "

Ricardo Salgado não tinha pedido para ser ouvido na fase de instrução do processo Marquês, mas o juiz Ivo Rosa considerou que o seu depoimento no âmbito da investigação conhecida como Monte Branco não poderia ser utilizado fora desse processo.

Por isso quer ouvir a sua explicação para algumas das acusações apresentadas pelo Ministério Público. Por exemplo a entrega a Zeinal Bava, na altura presidente da Portugal Telecom, de 25,2 milhões de euros. Operação já explicada pelo gestor que garantiu a Ivo Rosa que essa verba era um empréstimo para a compra de ações da PT.

A acusação do Ministério Público também destaca os negócios e a influência que o GES tinha na empresa de telecomunicações, mas estes temas acabaram por não ser referidos neste interrogatório. Recorde-se que o MP destacou o facto de entre 2001 e 2014 o Grupo Espírito Santo ter recebidoda Portugal Telecom 634 milhões por ano, ou seja um total de 8,4 mil milhões de euros em dividendos e pagamentos de serviços prestados.

O chumbo da OPA da SONAE à PT é outro dos assuntos referidos na acusação pois é a base de sustentação para a tese dos pagamentos a José Sócrates (então primeiro-ministro e uma das figuras centrais do processo Marquês), de Henrique Granadeiro e Zeinal Bava, os dois administradores da PT, pois todos teriam unidos esforços para que esse negócio não fosse concretizado.

Na acusação, o antigo presidente do Grupo Espírito Santo é descrito como uma das figuras centrais de um esquema alegadamente ilegal que contou com diversas transações financeiras e decisões de gestão. Terá sido ele o responsável por várias estratégias de movimentação de dinheiro em contas bancárias em paraísos fiscais, envolvendo por exemplo Carlos Santos Silva, José Sócrates, Hélder Bataglia ou Joaquim Barroca.

A influência do ex-banqueiro ter-se-á feito sentir em negócios que envolviam as empresas OI e VIVO (brasileiras) - também não quis flar sobre eles - e a espanhola Telefónica.

O MP acredita que Ricardo Salgado - com recurso a uma teia de conhecimentos - foi utilizando contas bancárias em sociedades offshore em vários paraísos fiscais de alguns dos acusados no processo (como Joaquim Barroca, Hélder Bataglia, José Pinto de Sousa e Carlos Santos Silva) para fazer circular verbas que acabariam em contas dos envolvidos, incluindo o ex-governante José Sócrates, e nas dele. É até frisado que terá recebido mais de dez milhões de euros com este esquema em que alegados pagamentos ao Grupo BES tinham como destino final as suas contas bancárias.

Em 2011, Ricardo Salgado terá declarado que obteve 9,6 milhões de euros de rendimento nesse ano, mas, de acordo com a acusação, não terá somado a esta verba outros 7,9 milhões, daí incorrer num crime de fraude fiscal e um prejuízo para o Estado de 4,7 milhões de euros em IRS por pagar.

O antigo presidente do Grupo Espírito Santo está acusado de 21 crimes: corrupção ativa de titular de cargo político (1), corrupção ativa (2) branqueamento de capitais (9), abuso de confiança (3) falsificação de documentos (3) e fraude fiscal qualificada (3).

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