Professores portugueses em Timor viram repatriamento suspenso. Temem pela saúde

O processo de repatriamento dos professores portugueses em Timor está suspenso até se saber quais são as medidas decretadas pelo governo timorense para o ensino. Cerca de 200 docentes desesperam, com medo do que lhes poderá acontecer.

Os professores portugueses que se encontram em Timor não sabem se ficam no país ou se serão repatriados. Depois de terem a informação por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) que se iria iniciar o repatriamento, disseram-lhes que processo foi suspenso até se saber se as autoridades timorenses mantêm as escolas fechadas. Estão encerradas há uma semana e, da reunião de conselho de ministros timorense, este sábado, nada foi dito sobre os estabelecimentos de ensino.

Às perguntas do DN, o gabinete de Augusto Santos Silva respondeu: "Tendo sido declarado, esta sexta-feira, em Timor-Leste, o estado de emergência, estamos na expectativa de saber se o Governo timorense vai ou não prolongar a suspensão das atividades letivas das escolas e, se sim, por quanto tempo, para podermos tomar uma decisão informada".

O conselho de ministros de Timor reuniu este sábado (a capital, Dili, tem uma diferença de mais 9 horas relativamente a Lisboa), sem que tivessem publicado a informação sobre as medidas ao nível do ensino. Apenas há uma mensagem na página do Facebook do Ministério de Educação, Juventude e Desporto, referindo que iriam entrar de férias no dia 30, supostamente dia 30 de março, sem especificar o que acontece com a aprendizagem da língua portuguesa, além de ser uma mensagem em tétum. Língua que os professores portugueses não entendem.

A explicação do MNE não faz sentido para os professores. "O estado de emergência foi decretado por um mês, se está tudo dentro de suas casas, como é possível imaginar as escolas abertas?", pergunta um dos 140 docentes do Centro de Aprendizagem e Formação Escolar (CAFE).

Aos agentes de cooperação do CAFE, juntam-se cerca de 40 da Escola Portuguesa de Díli - Centro de Ensino e Língua Portuguesa Ruy Cinatti -, não tendo o MNE revelado se haverá outros cooperantes para repatriar. Nem quem está em Timor sabe quantos são na totalidade, e o consulado português está fechado desde terça-feira.

Inicialmente, os portugueses tiveram a informação, através da embaixada de Portugal, que o governo timorense suportaria as despesas da antecipação da viagem de regresso, que estava marcada para o fim do contrato, em dezembro. Posteriormente, disseram que os docentes teriam que comparticipar esses custos e nem falaram na possibilidade de antecipar as que já estão marcadas.

"Diz-se muita coisa mas nada é concreto nem certo. Ninguém consegue precisar o que neste momento é verdade ou não", lamenta o docente contactado pelo DN, que sublinha estar com medo do que possa acontecer com a doença covid-19 no país. "Além de um caso declarado de coronavírus em Dili, há 600 em quarentena à espera do resultado do despiste. Devem ser só habitantes de Díli e das redondezas próximas, fora os pobres e que vivem na miséria. Quando isto estalar, vai ser uma desgraça. Estamos numa ilha com condições extremas e inimagináveis, isolados e a 18 mil km de casa".

O cenário que retrata é de uma população "subnutrida, que vive exposta a condições inimagináveis, no meio do lixo, sem saneamento básico, com excrementos de animais que circulam doentes no meio das ruas. A água das torneiras não se pode beber. Nem tão pouco na capital, Díli, e mesmo aí, é só olhar e ver os esgotos a céu aberto. As pessoas com febre, tosse e dores no peito vão aos centros de saúde, dão-lhes uns comprimidos e mandam-nas embora sem outras indicações, apesar de fazerem ações de sensibilização nos mercados e nas missas para a tomada de medidas de precaução. Nestas condições, físicas e ambientais, como é isto possível? Até nós que temos hábitos de higiene assertivos temos muita dificuldade em o fazer". Teme que apenas os privilegiados tenham acesso aos testes para despiste do novo coronavírus.

Isto, sem falar na ida para Díli de um grupo docentes de Oecusse Ambeno e Baucua que, alegadamente, terá sido objeto de intimidação e agressões, acusados pela população de terem propagado o SARS-Cov-2 (o novo coronavírus)..

Aquele docente chegou a Timor no início de março e poucas aulas deu. Vive numa localidade na montanha onde, este sábado, a polícia ordenou o encerramento dos estabelecimentos comerciais e do mercado, valeu-lhe ter-se deslocado antes à capital e comprar alguma comida. "Estamos na montanha e receamos, se a situação não se resolver, ficar sem comida dentro de pouco tempo".

O projeto CAFE consiste numa intervenção dos agentes não apenas nas escolas destinadas para o efeito e que existem em 13 distritos timorenses, como também ao nível da comunidade onde estas se inserem. O princípio "é contribuir para um futuro melhor das populações, nomeadamente através da escolaridade das crianças e jovens timorenses, promovendo o ensino e o uso da Língua Portuguesa"

Em Portugal, a ação é coordenada pela Direção-Geral da Administração Escolar e pelo Instituto Camões. "Os governos de Portugal e de Timor entenderam haver condições para iniciarmos funções em Timor-Leste, nós viemos. Agora que já assumiram a falta delas para dar continuidade ao nosso trabalho, deixam-nos abandonados à nossa sorte. Apenas palavras politicamente corretas e demagógicas e ações zero", protestam os docentes.

O estatuto de Agente de Cooperação não permite aos cooperantes dar entrevistas, sejam elas particulares ou institucionais, razão pela qual os professores pedem o anonimato.

O decreto aprovado este sábado no conselho de ministros timorense, a que a Lusa teve acesso, não limita a circulação de pessoas ou de bens e permite que todas as lojas, serviços e mercados continuem a funcionar, ainda que com regras de acesso.

Em concreto, quem quiser aceder aos espaços comerciais ou de prestação de serviços tem que "utilizar máscara de proteção da boca e do nariz" e "higienizar as mãos antes de entrar", devendo os estes estabelecimentos disponibilizar as condições de higiene. E, no interior tem que "respeitar a distância de, pelo menos, um metro relativamente a outros indivíduos".

Segundo a agência Lusa, o governo timorense avaliará as medidas decretadas no estado de emergência e podem ser endurecidas ao longo do tempo, estando marcadas reuniões da comissão interministerial criada para gerir a covid-19.

Timor tem um caso confirmado da covid-19 e está em estado de emergência desde as 00.00 deste sábado, hora local (15:00 de sexta-feira hora de Lisboa) e até às 23:59 de 26 de abril, hora local (15:59 hora de Lisboa).

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