António Costa: "Europa precisa de sinais positivos e reabertura das fronteiras é um"

Os chefes de Estado e de Governo de Portugal e de Espanha juntam-se esta quarta-feira para assinalar a reabertura da fronteira, encerrada há três meses e meio, com cerimónias de alto nível em Badajoz e Elvas.

Devido à pandemia de covid-19, por decisão conjunta, a fronteira luso-espanhola foi encerrada às 23:00 de 16 de março (00:00 de dia 17 em Espanha), com pontos de passagem exclusivamente destinados ao transporte de mercadorias e a trabalhadores transfronteiriços, e reabriu às 23:00 desta terça-feira, (00:00 de hoje em Espanha).

As autoridades dos dois países ibéricos quiseram conferir especial simbolismo político a esta reabertura e organizaram cerimónias durante a manhã de hoje, nos dois lados da fronteira, com a participação do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, do rei de Espanha, Felipe VI, do primeiro-ministro português, António Costa, e do chefe do Governo espanhol, Pedro Sánchez, com cerimónias de alto nível em Badajoz e Elvas.

Antes da cerimónia, António Costa saudou no Twitter um reencontro de "irmãos e amigos".

Já em Elvas, António Costa e Pedro Sánchez destacaram a importância da abertura das fronteiras, que é uma grande notícia a abertura das fronteiras na União Europeia.

Pedro Sánchez assumiu a sua "felicidade" em estar com o "amigo António Costa". "O governo português sempre apoiou Espanha nas horas mais difíceis. A mensagem agora é de sossego, tranquilidade, não baixar a guarda, manter as máscaras, o distanciamento social e aprender a conviver com o vírus", afirmou o primeiro-ministro espanhol.

Já António Costa descreveu este como "um momento muito especial, muito importante". "Portugal e Espanha voltaram a ser vizinhos muito próximos. A Europa hoje precisa de mensagens positivas e a abertura das fronteiras é uma. Cerimónias em fortalezas foram momentos simbólicos, porque as fortalezas foram construídas quando os países estavam de costas voltadas. Portugueses e espanhóis vão ter de conviver juntos com o covid-19. Se todos cumprirmos, a fronteira vai manter-se sempre aberta. A abertura da fronteira é uma oportunidade de desenvolvimento para os dois países, para a Península Ibérica e para a União Europeia", frisou o primeiro-ministro português.

Acerca da pressão sobre os hospitais de Lisboa e Vale do Tejo, Costa revelou que "foram criados sítios alternativos, como instalações militares, para que as pessoas possam passar o isolamento", reiterando ainda que a Segurança Social terá de apoiar quem mais necessita.

Fronteira do Caia foi palco de troca de princesas

Entre as duas localidades, na fronteira do rio Caia, teve lugar há quase três séculos uma troca de princesas antes de dois casamentos estatais que terminaram quase 90 anos de inimizade entre os dois reinos vizinhos e tornaram uma Infanta de Espanha em futura rainha de Portugal e uma Infanta portuguesa em futura rainha de Espanha, como recordou o historiador Andrés Merino Thomas ao diário espanhol ABC.

A troca foi formalizada a 19 de janeiro de 1729, na fronteira do rio Caia, entre Elvas e Badajoz, seguindo o ritual solene da época, cheio de pompa e circunstância. Três pavilhões foram construídos sobre o rio, um em cada margem para as delegações, e outro, mais importante, no centro, onde ocorreu a troca.

Uma das princesas era Maria Ana (Mariana) Victoria de Borbón (1718-1781), filha de Filipe V e Isabel de Farnesio e que tinha sido antes prometida a Luís XV de França, mas foi afinal entregue à corte de Portugal com apenas 11 anos para casar com o herdeiro da Coroa, o futuro D. José I, então com 14 anos.

Por outro lado, a princesa Maria Bárbara de Bragança, de 17 anos, filha de D. João V e Maria Ana de Áustria fez, o percurso inverso para casar com o herdeiro da coroa espanhola, o futuro Fernando VI.

Os reis de Portugal, D. João V e Maria Ana da Áustria, compareceram na companhia do seus três filhos, José, príncipe do Brasil; Infanta Bárbara e Infante Pedro, bem como com os irmãos do rei, Francisco e Antonio.

Já os reis da Espanha surgiram com seus quatro filhos, o príncipe das Astúrias, Fernando; a Infanta Maria Ana Victoria de Borbón e os Infantes Carlos e Filipe.

Na hora da despedida, as princesas tinham os rostos coberto de lágrimas. "Os quatro reis não conseguiram, apesar da violência do que estavam a fazer, parar as suas lágrimas e dificultar a cena. Levaram a cerimónia até ao fim e entraram nos carros para voltar a Badajoz e Elvas", conta José del Campo-Raso nas suas "Memórias Militares e Políticas".

Maria Ana Victoria teve oito filhos, entre as quais Maria, futura D. Maria I, a "Piedosa" ou "Louca", como ficou conhecida, que reinaria entre 1777 e 1816.

"Celebrar com dignidade a abertura da fronteira"

De acordo com o programa oficial divulgado, realizar-se-á primeiro uma cerimónia no Museu Arqueológico de Badajoz, pelas 09:30 de Portugal (10:30 em Espanha), em que serão executados os hinos dos dois países e haverá uma fotografia de família. Quinze minutos mais tarde, decorrerá uma cerimónia semelhante, no Castelo de Elvas, no distrito de Portalegre.

A ministra espanhola da Indústria, Comércio e Turismo, Reyes Maroto, começou por anunciar uma reabertura da fronteira com Portugal para o dia 22 de junho, anúncio a que o Governo português reagiu com surpresa, tendo sido depois acertado o dia 01 de julho.

No domingo passado, em entrevista ao jornal catalão La Vanguardia, o primeiro-ministro português afirmou, referindo-se às cerimónias de hoje: "Vamos celebrar com toda a dignidade a abertura da nossa fronteira, a mais antiga da Europa, que com muita tristeza vimos fechada durante estes meses".

Espanha foi um dos países mais atingidos pela pandemia de covid-19, doença provocada por um novo coronavírus detetado em dezembro do ano passado no centro da China, e soma mais de 28 mil mortes, num total de cerca de 250 mil casos de infeção contabilizados.

Nas últimas semanas, o número de novas infeções e de mortes reportados baixou significativamente. De segunda para terça-feira, registaram-se em Espanha mais nove mortes e 99 novos casos, de acordo com o Ministério da Saúde espanhol.

Nas mesmas 24 horas, Portugal registou mais oito mortes e mais 229 infetados, totalizando agora 1.576 óbitos e um total de 42.141 casos de infeção contabilizados, segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS).

A maioria dos novos casos tem surgido na Área Metropolitana de Lisboa, principalmente nos concelhos de Sintra, Amadora, Loures, Odivelas e Lisboa, o que levou o Governo a adotar medidas específicas, sobretudo para 19 freguesias, onde continua a vigorar o estado de calamidade, enquanto a maior parte do território nacional passou a estado de alerta.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, António Costa, têm defendido que Portugal optou pela verdade na divulgação dos dados da covid-19 e têm assinalado que o país é um dos que realiza mais testes no espaço europeu.

Na atual conjuntura, Portugal e Espanha têm estado lado a lado na União Europeia, desde logo, em defesa de uma forte resposta económica e financeira às consequências da pandemia de covid-19.

Face à saída do ex-ministro português das Finanças português, Mário Centeno. presidência do Eurogrupo, que acontecerá em breve, António Costa admitiu apoiar a candidatura da ministra espanhola da Economia, Nadia Calvino, considerando importante que esse cargo "continue a ser desempenhado por um socialista".

O Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) marcou um protesto contra a energia nuclear e pelo encerramento da central espanhola de Almaraz para durante as cerimónias oficiais de hoje.

Também a associação ProToiro - Federação Portuguesa de Tauromaquia comunicou que vai fazer durante estas cerimónias um protesto contra as políticas do Governo português aplicadas aos espetáculos tauromáquicos.

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