Ordem dos Médicos condena utilização de ozonoterapia para tratar a covid, depois de detenções

A PJ deteve, esta quinta-feira, cinco profissionais de saúde suspeitos de aliciarem doentes para a prática de ozonoterapia como tratamento eficaz contra a covid-19. Bastonário dos Médicos diz que terapias convencionais "não têm evidências cientificas", condenando a atuação de quem diz ter a cura para o novo coronavírus.

"Todos queremos uma cura para a covid-19, mas se houvesse já saberiamos. Não há nada que mais se quisesse tornar público", diz o bastonário da Ordem dos Médicos, ao DN, depois da detenção de cinco profisisonais de saúde acusados de promover tratamentos com ozono para tratar infetados com o novo coronavírus. A "Operação Terapia" da Polícia Judiciária (PJ), que contou com o apoio da Ordem, envolveu buscas a clínicas médicas, residências e empresas.

Em comunicado, a PJ informou que foram detidos dois homens e três mulheres entre os 32 e os 62 anos e que em causa estava um esquema fraudulento de prestação de tratamentos não comparticipados por qualquer sistema de saúde, sobretudo, pelo Instituto de Proteção e Assistência na Doença (ADSE). Referem-se à realização de ozonoterapias - uma prática não convencial que consiste na admnistração de ozono para tratar patologias com origem inflamatória, infecciosa ou isquémica -, não reconhecida pelo sistema de saúde tradiconal.

"Existem indícios de que os suspeitos recorrem ainda a práticas pouco esclarecedoras, convencendo os utentes de que a ozonoterapia se mostra eficaz no tratamento do covid-19 ou de que permite ganhar imunidade, explorando a fragilidade e vulnerabilidade de pessoas receosas do vírus ou mesmo infetadas, sabendo os suspeitos que com a prática destes atos podem contribuir para a propagação de doença contagiosa, criando perigo para a vida ou perigo grave para a integridade física das vítimas e de terceiros", precisa a PJ.

A ozonoterapia pode ser introduzida no corpo de várias formas, nomeadamente, com administração endovenosa, intramuscular, subcutânea e retal, segundo informação disponível na página da internet da Sociedade Portuguesa de Ozonoterapia. Nos primeiros casos, a prática realiza-se "extraindo sangue venoso ( 100 a 200 ml ) que se trata com ozono médico para sua posterior reinfusão". Na insuflução retal, aplica-se diretamente o gás através de uma sonda.

O bastonário da Ordem dos Médicos admite que esta terapia é "utilizada em diversas circunstâncias", apesar de não "existirem evidências cientificas" que comprovem a sua eficácia. Miguel Guimarães diz que usar a ozonoterapia para tratar a covid-19 é "condenável", apontando o dedo à Assembleia da República, que permitiu passar na nova Lei de Bases da Saúde a necessidade de regular as terapias não convencionais.

Sobre estas cinco detenções em concreto, Miguel Guimarães lembra que não se pode pronunciar, uma vez que o caso se encontra em segredo de justiça, mas não deixa de ressalvar a importância e a disponibilidade da Ordem para continuar a colaborar com a PJ. "As responsabilidades da Ordem também passam por combater as más práticas e preservar a saúde pública", salienta o bastonário dos médicos.

De acordo com a PJ, às suspeitas de propagação da doença, acresce o facto da terapia ter sido realizada por profissionais que não estão devidamente habilitados. Nestas clínicas realizavam-se ainda análises clínicas, designadamente para deteção de infeção por SARS-Cov-2, o vírus que causa a covid-19, sem para tal estarem licenciadas ou reunirem as condições necessárias, designadamente de direção clínica.

A operação, a cargo da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da PJ, foi realizada por 50 agentes. Além das buscas e dos mandados de detenção, a ação policial permitiu ainda recolher elementos de prova que consubstanciam os crimes imputados no inquérito. As diligências policiais foram acompanhadas por um procurador do Departamento Central de Investigação e Ação Penal e por um juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal.

Com Lusa

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