Maquinistas admitem processar IP se esta não tiver seguido as recomendações

Caso a Infraestruturas de Portugal tivesse instalado sistema de controlo de velocidade prometido há dois anos, "o acidente não se teria produzido", acusa o representante sindical dos maquinistas.

O presidente do Sindicato Nacional dos Maquinistas (SMAQ) confirmou este sábado à Lusa, depois da notícia avançada pelo jornal Público, que admite avançar com um processo criminal contra a Infraestruturas de Portugal (IP) se forem confirmados os indícios de que a empresa foi responsável pelo acidente de sexta-feira e que não seguiu as recomendações. Soure, em Coimbra, foi na sexta-feira palco de uma colisão entre um Alfa Pendular e um veículo de conservação de catenárias, de que resultaram dois mortos e dezenas de feridos.

O sindicato "admite avançar com processo criminal contra a IP", disse António Domingues, em declarações à Lusa. O responsável explicou que há "recomendações anteriores noutros incidentes semelhantes com este tipo de material motor, em que o Gabinete de Investigação Ferroviária [GPIAAF] fez determinadas recomendações, uma das quais à IP no sentido deste material motor ser apetrechado do sistema CONVEL [sistema de controlo automático de velocidade]" e "essa recomendação não foi seguida".

Os indícios "do relatório preliminar, porque a investigação está a decorrer, apontam que se aquele material motor estivesse apetrechado desse sistema, o acidente não se teria produzido", prosseguiu o presidente do SMAQ, António Domingues. "Estamos a falar sobre indícios, não há o relatório completo, no final tiraremos as nossas próprias conclusões", salientou.

O Veículo de Conservação de Catenária (VCC), que foi abalroado na sexta-feira pelo comboio Alfa Pendular, em Soure, Coimbra, passou um sinal vermelho e entrou na Linha do Norte, refere este sábado o organismo responsável pela investigação.

Segundo uma nota do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), a que a agência Lusa teve acesso, o VCC "do gestor da infraestrutura tinha marcha estabelecida para a sua deslocação entre o Entroncamento e Mangualde", era tripulado por dois trabalhadores (as duas vítimas mortais) e "não iria realizar quaisquer trabalhos no decurso da sua viagem".

Pelas 15:12, explica o GPIAAF, o VCC parou na via de resguardo (linha III) da estação de Soure a aguardar pela passagem do Alfa Pendular mas, alguns momentos depois, "por razões, que neste momento estão indeterminadas e que serão aprofundadas no decurso da investigação, o VCC reinicia a sua marcha, ultrapassando o sinal que se mantinha com aspeto vermelho" e invade a linha I, onde circulava o Alfa Pendular.

"Os VCC, tal como a generalidade dos veículos de manutenção de via no nosso país, não estão equipados com o sistema CONVEL, motivo pelo qual não foi desencadeada a frenagem automática resultando na consequente imobilização do VCC 105 antes de atingir um ponto de perigo", sublinha o GPIAAF, na nota.

"O Gabinete de Investigação Ferroviária não é um gabinete novo, já têm feito muitas investigações, recomendações, muitas das quais não são cumpridas", disse o presidente do SMAQ.

A IP comprometeu-se há dois anos com a instalação do sistema de controlo automático de velocidade (CONVEL) em Veículos de Conservação de Catenária, mas a medida, "sujeita a cabimentação financeira", nunca avançou.

António Domingues sublinha que o sistema ferroviário "é um meio de transporte mais seguro", embora "determinadas linhas (...) necessitem de melhorias". Mas, de "forma geral, o sistema português é seguro e não queremos colocar isso em causa, agora estas falhas não podem acontecer", rematou o presidente do SMAQ.

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