Ex-padre exorcista acusado de violação: "Com abuso custa tanto, sem abuso custa menos"

Humberto Gama praticava exorcismos e foi detido por suspeita de violação. Em 2008, quando já existiam queixas de abusos dizia que as acusações de era alvo não tinham impacte na sua vida. Na altura explicava que tocava nas pessoas para as libertar da energia negativa

"Não tem nada de verdade. O impacte foi positivo. Até estive para pôr um letreiro a dizer: olhe que o abuso custa tanto, sem abuso custa menos". Foi com esta polémica frase que Humberto Gama, o antigo padre detido esta sexta-feira pela PJ sob a suspeita de se ter aproveitado de um alegado exorcismo para violar uma mulher, comentou em 2008 as acusações de que já era alvo de que durante as sessões de "libertação de espíritos" se aproveitava das mulheres que o procuravam.

Este sábado foi presente ao juiz do Tribunal de Santarém que lhe aplicou como medida de coação a proibição de se aproximar da vítima e a obrigação de se apresentar duas vezes por semanas às forças de segurança da sua área de residência, Fátima.

A frase de 2008, em entrevista ao jornal regional Mirante, referia-se a uma suspeita lançada por um casal, mas a verdade é que a vida do ex-padre tem sido uma sucessão de polémicas.

Sem nunca ter sido condenado por nenhum crime, Humberto Gama já tinha sido denunciado por duas mulheres em 2004, depois foi o caso de 2006. Mas esses abusos nunca foram provados, embora tenha chegado a ir a tribunal.

Agora, a situação terá mudado. A vítima foi a uma consulta no dia 1 de agosto (quarta-feira passada) e, segundo a PJ, que o deteve no consultório que tem em Fátima, "o arguido, aproveitando a sua atividade de exorcista e explorando a fragilidade da vítima, especialmente vulnerável, constrangeu-a à prática de atos sexuais de relevo, após a ter colocado na impossibilidade de resistir." A mulher foi levada para o hospital, onde terá sido assistida.

Não se sabe o que aconteceu no consultório neste primeiro dia de agosto, mas as queixas antigas eram muito idênticas: apalpões, beijos na boca e introdução de "dedos na vagina".

Na entrevista ao Mirante Humberto Gama reconheceu que havia contacto físico nas consultas. "Uso um método de tocar nas pessoas, porque quando alguém está possesso com energia negativa, essa energia não sai, assim com um vai, vai. Uma pessoa tem de a apanhar e eu, graça a este poder, basta tocar na pessoa. Liberto rapidamente".

Acrescentou que tinha uma profissão muito exigente. "É uma atividade muito dura. Sabe o que é estar das sete da manhã às 11 da noite a ser mordido, cuspido...?"

Deixou ainda a revelação que, na altura, andava "a tratar uns 40 padres".

"Se estivessem boas da cabeça não vinham cá"

Humberto Gama apresenta-se como padre, e na realidade foi ordenado sacerdote em 1965, tendo pertencido à Congregação Marianos da Imaculada Conceição. Porém, sete anos depois foi afastado, "por motivos graves", segundo a Igreja, quando se encontrava em Inglaterra, ao serviço daquela instituição. Continuou, no entanto, a usar as vestes sacerdotais - a vestir o cabeção (o colarinho branco) à volta do pescoço - e praticar ritos religiosos, algo que em 2011 a diocese de Leiria-Fátima considerou abusivo.

Na sua página do Facebook tem uma foto sua com o Papa João Paulo II que está colocada no cartão onde tem a indicação dos seus três consultórios - Fátima, Curópos e Cadaval - e respetivos contactos.

Na reportagem do Mirante explica que as pessoas lhe partiam "as coisas" lá em casa. Mas, garantia, "não faz mal, as coisas são para partir. Se as pessoas estivessem boas da cabeça não vinham cá".

E dá um exemplo dos seus poderes: "Se passar ali na rua uma ambulância com um morto, não preciso de a ouvir. Arroto logo."

Na luta pela Câmara de Mirandela

A vida de Marcelino Humberto Gama tem vários percursos. Um deles passa pela política, nos anos 90 do século passado, quando se candidatou à presidência da Câmara de Mirandela, numa candidatura apoiada pelo PS e em que tinha como principal adversário o irmão José, já falecido, que fora eleito pelo CDS e que em 1993 ganhou a autarquia para o PSD.

Depois deixou o PS e passou para o PSN, não tendo sido eleito. Mais tarde, ainda concorreu duas vezes a Murça, pelo CDS.

Mas a história deste antigo padre, também conhecido por Doutor Gama, começa no final da década de 30 do século passado em Trás-os-Montes. Tem direito a uma entrada no Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, onde se pode ler que nasceu em Mascarenhas, concelho de Mirandela, "de um lar com grandes dificuldades".

Estudou no seminário, tal como o irmão mais novo José Gama, e chegou a ser ordenado. Depois do afastamento foi para os Estados Unidos, onde diz ter sido professor.

Percurso profissional que lhe tem garantido, já o disse várias vezes, os rendimentos para ter uma vida tranquila. Por exemplo, ter carros de alta cilindrada. Numa entrevista em 2010 ao programa da RTP Lado B, conduzido por Bruno Nogueira, explicou que gosta de conduzir carros grandes. "Criei-me na América e por isso gosto de carros grandes, como o BMW 7. Faço 100 mil quilómetros por ano". Explicou ainda que também gostava de andar de moto: "Já andei muito. E parti muitas costelas."

Celibato é hipocrisia

Na entrevista ao Mirante, Humberto Gama diz que a acusação de abuso de que foi alvo em 2006 tinha sido uma manobra da Igreja. "Foi encomendado. A pessoa já cá veio outra vez. Foi orquestrado por um padre barrigudo que estava habituado a receber muita gente em casa".

Apreciador de pintura e música sublinhou ter ideias muito concretas sobre uma das maiores discussões que existem na Igreja: o celibato dos padres.

"Isso foi tudo inventado. É uma hipocrisia da Igreja", respondeu ao jornalista, que lhe perguntou se tinha filhos. A resposta: "Sei lá se tenho. Valha-me Deus."

Com P.J.

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