Clonaram dezenas de cartões em caixas ATM do Grande Porto

Seis brasileiros vão ser julgados por associação criminosa, entre outros crimes, por terem copiado os dados de cartões bancários e depois fabricado novos, forjados, com os quais fizeram levantamentos e pagaram compras.

Durante pouco mais de um mês, um grupo de seis homens, todos brasileiros, clonaram dezenas de cartões bancários em caixas ATM do Grande Porto. Formavam uma organização bem delineada, com tarefas distribuídas: uns colocavam equipamentos em terminais de multibanco para recolher dados de cartões, outros tratavam os dados para os incluir em cartões e outros iam fazer compras ou levantamentos. Surpreenderam a Polícia Judiciária (PJ) pelo grau de sofisticação - desde o fabrico dos dispositivos que liam e filmavam nas ATM até ao software para transpor os dados para novos cartões que fabricavam, tudo era produzido por estes seis homens. Foram detidos no ano passado numa moradia em Gaia que servia de posto de trabalho e na terça-feira começam a ser julgados no Tribunal de Matosinhos, no Juízo Central Criminal de Vila do Conde.

Os indivíduos, com idades entre os 25 e os 43 anos, estão em prisão preventiva desde julho do ano passado. Com exceção de um, são todos solteiros e residentes em São Paulo. Nenhum dos acusados tinha antecedentes criminais no Brasil e dois deles tinham profissões ligadas à informática, enquanto três não tinham qualquer ocupação conhecida. Foram chegando a Portugal, separados, e reuniram-se em Matosinhos, primeiro, e depois em Gaia. Quando foram presos já tinham bilhetes de avião reservados para sair do país. Estão acusados dos crimes de associação criminosa, contrafação de cartões de garantia ou de crédito, passagem de moeda falsa e falsidade informática, estes três últimos todos na forma continuada.

Foi no dia 6 de junho de 2018 que o primeiro sinal dos crimes chegou às autoridades. Na Maia, um cidadão ia levantar dinheiro e já tinha o cartão introduzido na caixa ATM quando reparou que havia uma barra que sobressaía. Já não digitou o PIN e pressionou a referida barra. Esta soltou-se logo e o homem dirigiu-se à PSP. A PJ, pela brigada especializada, começou a investigar.

Apanhados pela videovigilância

Dias depois é comunicado pela SIBS à PJ que tinha sido efetuado um pagamento com um cartão forjado num posto de abastecimento em Leça da Palmeira. Aqui, os investigadores começaram a tomar conhecimento do grupo. As imagens de videovigilância mostravam três dos brasileiros e permitiram recolher a matrícula do BMW em que circulavam. Tinha sido alugado e um dos suspeitos foi logo identificado. No processo, há várias imagens dos suspeitos em ação captados por imagens de videovigilância, tal como dos automóveis que usaram. Em cinco semanas, foram alugados vários carros (BMW, Mercedes, Audi e Toyota), por diferentes elementos do grupo.

Em Matosinhos, Porto, Maia e Vila Nova de Gaia atacaram em diversas caixas ATM. As que eram mais usadas por turistas, com o serviço Euronet (norte-americano), que não está integrado na SIBS, mereciam a sua atenção. Muitos dos cartões forjados apreendidos ainda não tinham sido utilizados, sendo uma técnica destes grupos a utilizá-los noutro país.

Segundo a acusação do Ministério Público, o grupo é responsável pela clonagem de 57 cartões, com os quais realizaram 366 operações no valor de 37 899 euros. Destas operações, 176 tinham sido já concretizadas, no valor de 13 611 euros. A PJ apreendeu ainda centenas de cartões já clonados, dos quais 117 eram de bancos nacionais, abrangendo praticamente todos os que operam no país. Nas buscas efetuadas à moradia em Valadares, foram apreendidos 27 455 euros em dinheiro. O BCP é demandante, já que um cliente, em sete operações, ficou sem 800 euros.

Diz a acusação que os seis arguidos "fabricaram e instalaram nas caixas ATM equipamento de clonagem de cartões". O primeiro passo era colocar equipamento nas ATM. "Consistia numa régua com uma microcâmara com cartão de memória, destinada à captação de imagens de digitação do código PIN" e numa "peça de plástico com ranhura para entrada de cartões tendo acoplada uma placa eletrónica para ler, capturar e armazenar o conteúdo das bandas magnéticas". Usavam cola e fita-cola para colar os equipamentos que ficavam nas caixas apenas durante algumas horas.

Depois, na posse dos dados magnéticos, elaboravam novos cartões. Nas buscas foram encontradas dezenas de cartões "brancos" prontos a serem clonados. A PJ considerou que estavam num nível raramente visto. "É a primeira vez que vemos um grupo destes, em que controlavam tudo desde o início do processo até ao fim", comentou um dos investigadores após o desmantelamento do grupo.

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