Alerta das secretas: ameaça do Estado Islâmico sobre a Europa mantém-se alta

Serviço de Informações de Segurança avisa que, apesar do seu declínio na Síria e no Iraque, o grupo terrorista continua a radicalizar novos membros e a preparar-se para mais atentados em solo europeu.

O autodenominado Estado Islâmico pode estar a perder força na Síria e no Iraque, mas a ameaça do grupo terrorista sobre a Europa mantém-se alta. O alerta é sublinhado num documento elaborado já na segunda metade deste ano pelo Serviço de Informações de Segurança (SIS) e torna-se mais atual do que nunca, numa altura em que notícias dão conta da libertação de centenas de jihadistas das cadeias europeias nos próximos anos e quando os Estados Unidos da América acabam de anunciar a retirada dos seus militares da Síria. Na sua análise, que fontes do Sistema de Segurança Interna garantem manter-se atual, o SIS avisa que "o declínio do Califado enquanto autoadministração de um vasto território não significa o fim da organização terrorista Estado Islâmico (EI) e não mitiga a ameaça que impende sobre a Europa", falando no risco de novos ataques de baixa complexidade.

As secretas portuguesas reconhecem que a intervenção das forças da coligação contra o EI nos territórios da Síria e do Iraque levou ao declínio do "califado", assim como ao enfraquecimento da sua estrutura. No entanto, a acalmia militar no terreno nos últimos tempos possibilitou o reagrupamento dos jihadistas e famílias em algumas bolsas territoriais, em particular ao longo das margens do Rio Eufrates. "Por isso, e num ambiente mais estabilizado, os militantes da organização terrorista estarão a envidar esforços para aportar alguma estrutura, consistência e eficácia à sua debilitada organização, o que - a breve trecho - poderá traduzir uma maior capacidade do EI".

"Num ambiente mais estabilizado, os militantes da organização terrorista estarão a envidar esforços para aportar alguma estrutura, consistência e eficácia à sua debilitada organização, o que - a breve trecho - poderá traduzir uma maior capacidade do EI"

Uma força que não passará necessariamente pelo domínio de um território vasto, como aconteceu desde 2014 no autoproclamado "califado", mas sim pela eficácia na radicalização de novos membros e no planeamento de atentados com um alvo concreto: a Europa. "Poderá inevitavelmente contribuir para uma ação mais coordenada e mais eficaz no que concerne a sua ação na Europa, em três domínios em particular: i) o reforço da sua máquina de propaganda e um intensificar da difusão de conteúdos; ii) a radicalização e recrutamento de novos membros, de forma personalizada, explorando redes de contactos existentes; e, por isso, iii) não só a inspiração e encorajamento para a realização de ataques, mas a sua efetiva direção."

Novos desafios: libertação e regresso de jihadistas


Segundo o documento do SIS, uma parte da estrutura do grupo, dedicada exclusivamente ao apoio logístico e à facilitação das atividades terroristas, estará já localizada em países vizinhos à Síria e ao Iraque, para garantir "a manutenção das redes de contactos e a prossecução futura das atividades terroristas" e garantir "a sua sobrevivência em qualquer circunstância e a sua presença global".

Um cenário a que se juntam a expectável libertação a breve prazo de centenas de detidos por atividades terroristas em solo europeu, como o DN noticiou ainda esta quinta-feira, e a possibilidade de regresso à Europa de inúmeros militantes do EI, "quer enquanto estratégia de fuga, quer para consolidar a presença da organização na Europa". Recorde-se que já este ano, as secretas avisaram que podem voltar portugueses do "califado" a curto prazo, principalmente mulheres e crianças, o que já levou o SIS e a PJ a prepararem um plano para acolher as famílias dos jihadistas mortos em combate.

Ameaça moderada em Portugal

Mas se o SIS alerta que este quadro "não antecipa um desagravamento da ameaça que impende sobre a Europa", realça também que em Portugal o grau de ameaça terrorista permanece moderado. "Importa, contudo, sublinhar que Portugal e os cidadãos portugueses não estão à margem da estratégia da organização terrorista EI, do alcance da sua mensagem ou da ação dos seus militantes". Uma fonte do Sistema de Segurança Interna adianta ao DN que o quadro descrito no relatório do SIS não se alterou desde o verão, com exceção do atentado em Estrasburgo há duas semanas.

Em Portugal, mantém-se o grau moderado e nem os eventos do fim do ano devem alterar o grau de ameaça, com as forças de segurança a adotar maior visibilidade como elemento de dissuasão. "Continua a verificar-se uma intensa troca de partilha de informações entre serviços internos da União Europeia. Mas não há alterações à avaliação qualitativa da ameaça que foi realizada em julho quer em Portugal quer na União Europeia", reforça a mesma fonte.

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