Defesa de Rui Pinto já acredita num "entendimento" com as autoridades portuguesas

Pela primeira vez a defesa de Rui Pinto diz que é possível chegar a um acordo com as autoridades portuguesas que envolva uma colaboração do denunciante / hacker detido há um ano e acusado de 90 crimes

O advogado de defesa de Rui Pinto foi muito cauteloso com as palavras, mas pressionado pelas perguntas dos jornalistas acabou por revelar que acredita num acordo com as autoridades portuguesas. "Rui Pinto tem manifestado reiteradamente a sua disponibilidade para colaborar e tenho a expectativa que ainda venha a ser possível chegar a um entendimento sobre esse desejo de colaboração", declarou Francisco Teixeira da Mota, numa conferência de imprensa realizada esta sexta-feira para assinalar um ano da detenção do hacker / denunciante.

Rui Pinto tem manifestado reiteradamente a sua disponibilidade para colaborar e tenho a expectativa que ainda venha a ser possível chegar a um entendimento sobre esse desejo de colaboração

Até aqui, a defesa de Rui Pinto, quer através de Teixeira da Mota, quer de William Bourdon ou da ex-eurodeputada Ana Gomes, tem sempre alegado que as autoridades portuguesas - Ministério Público (MP) e Polícia Judiciária - só têm interesse na colaboração de Rui Pinto para o incriminar ainda mais.

O próprio Rui Pinto, num tweet que publicou depois de vir a público o escândalo revelado pelo "Luanda Leaks" (do qual diz ter sido a fonte), escreveu que "se dependesse da PJ e do MP português, estas informações nunca viriam a público, nem as autoridades angolanas alguma vez seriam informadas da existência destes dados. Vistos Gold, ESCOM, BES Angola... há ainda muita coisa que os portugueses merecem saber".

Questionado pelo DN sobre quais seriam as condições em que Rui Pinto estaria disposto a colaborar com a justiça portuguesa e quais as condições em que as autoridades nacionais aceitariam Rui Pinto como denunciante, Francisco Teixeira da Mota foi, mais uma vez, prudente: "Também eu gostava de saber as condições das autoridades. O que posso dizer é que Rui Pinto já manifestou a sua disponibilidade para cooperar e a partir do momento em que for discutida essa colaboração saberemos em que termos. Neste momento isso ainda não foi discutido", assinalou.

Rui Pinto, "o herói dos denunciantes"

Nesta conferência de imprensa marcaram presença vários dos 'pesos pesados' das equipas internacionais de investigação jornalística que têm publicado o material alegadamente cedido por Rui Pinto, quer relacionado com o Football Leaks, quer com o Luanda Leaks ou Panama Papers. Entre eles, Gerard Ryle, diretor do ICIJ - International Consortium of Investigative Journalists; Edwy Plenel, editor de Mediapart, representando o CIJ - Consórcio Internacional de Jornalistas; Henri Thulliez, diretor da PPLAAF - Plataforma de Proteção dos denunciantes em Africa e Delphine Halgand-Mishra, diretora executiva da The Signals Network.

O português é, na opinião de Edwy Plenel, "o herói dos denunciantes". Rui Pinto, salientou, "não cometeu nenhum crime, mas apenas revelou crimes de corrupção e de fraude fiscal contra o interesse público". Rui Pinto, sublinhou, "é o pioneiro do direito a saber da era digital e esse direito a saber é mais importante numa democracia que o próprio direito ao voto - se as pessoas não sabem o que se passa vão votar cegamente a favor dos piores inimigos!". Plenel entende que "o segredo bancário, o segredo profissional ou o segredo de Estado não podem ser o álibi para proteger os criminosos".

Também presente na conferência de imprensa estava William Bourdon, que mais uma vez apelou à libertação de Rui Pinto : "É o único denunciante na Europa que está detido", lamentou, lembrando que quando foi preso na Hungria, há um ano, "estava a tratar com as autoridades francesas para entrar num programa de proteção de testemunhas". Bourdon espera que Rui Pinto "possa ir a julgamento como um homem livre".

Stefan Candea, coordenador da "European Investigative Collaborations" (EIC), disse que as "mais de 1500 histórias" publicadas pela rede de investigação "em mais de 20 países", nos últimos quatro anos, se basearam maioritariamente "em dados disponibilizados pelo denunciante português".

Aos 30 anos, Rui Pinto vai ser julgado por 90 crimes de acesso indevido, violação de correspondência, acesso ilegítimo e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Arrisca-se a uma pena de prisão que pode chegar aos 10 anos de cadeia.

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