Combate à pandemia passa pelo SNS, mas particulares podem ajudar

Secretário de Estado diz que a prioridade é o setor público, mas afirmou que as ARS já reuniram com grupos privados da saúde para o caso de precisarem de receber doentes

A estratégia de combate à covid-19 passa em primeiro lugar pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) e só em caso de rotura pelos privados. A ideia foi reforçada pelo secretário de Estado Adjunto e da Saúde, António Lacerda Sales, na apresentação do boletim epidemiológico desta quarta-feira, 28 de outubro, dia em que se ficou a saber que nas últimas 24 horas foram registadas 3960 novas infeções e mais 24 mortes.

Lacerda Sales frisou que a estratégia dá cumprimento à Lei de Bases da Saúde, e por isso, deve usar-se "prioritariamente o SNS", mas não enjeitou que o aumento de número de infeções pelo novo coronavírus "possa ter que intensificar" o recurso aos hospitais privados - quer para casos covid, quer para casos não covid.

"Estamos numa fase crítica da pandemia e os portugueses, sem exceção, compreenderão que se aos cidadãos é exigido um reforço da responsabilidade individual na defesa do nosso bem-estar coletivo ao Ministério da Saúde é exigido que continue a tomar decisões como tem feito desde o início", afirmou sobre a gravidade da pandemia.

E sobre a cooperação que já vai sendo feita com o privado, o secretário de Estado deu como exemplo o hospital particular da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, que tem recebido doentes. Acrescentou que as ARS fizeram já um levantamento das necessidades com os grupo da Trofa, Lusíadas e CUF, no caso de virem a ser precisas camas para doentes covid devido ao aumento de infeções - no Porto, segundo um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, estima-se que o número de casos possa chegar aos sete mil diários na próxima semana.

"Não devemos transformar a Lei de Bases da Saúde em confronto ideológico."

Além disso, frisou Lacerda Sales, o Plano outono/inverno - que está a ser operacionalizado e deverá estar pronto em breve - já prevê contacto com unidades do setor privado, no sentido de se libertar camas do público. Proferiu, aliás, uma afirmação de índole político sobre esta matéria: "Não devemos transformar uma mera Lei de Bases da Saúde em confronto ideológico. Não existe qualquer estratégia ideológica." O exemplo, além do Hospital Fernando Pessoa, disse, é que os privados já têm atribuída 50% da capacidade de testagem.

Esta quarta-feira, Portugal praticamente atingiu a fasquia dos 4 mil casos diários. E as autoridades de saúde não enjeitam os tempos "difíceis, complexos e desafiantes" que se aproximam, no nosso país e no resto do mundo, onde a pandemia não dá tréguas. Para sábado está agendado um Conselho de Ministros extraordinário, com vista à tomada de medidas para tentar combater a transmissão do vírus e que deverá passar pelo anúncio de mais restrições.

"Penso que as nossas decisões têm sido acertadas."

Perante as previsões do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, o presidente do Conselho de Administração do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) mostrou-se otimista durante a conferência de imprensa. Fernando Almeida fez questão de sublinhar que não conhece o estudo, mas que estes números são uma estimativa que têm como base o pressuposto de não serem tomadas medidas para travar a propagação do SARS-Cov-2. "O que não é o caso, porque temos tomado as nossas decisões e penso que as nossas decisões têm sido acertadas", frisou.

Centro Europeu de Doenças alerta para internamentos


A verdade é que esta quarta-feira surgiram outros alertas em relação à situação em Portugal. Uma delas veio do Centro Europeu de Doenças (ECDC) que veio para o aumento dos internamentos de doentes covid em Portugal - há 1794 doentes internados, mais 47 nas últimas 24 horas. Nos cuidados intensivos estão 262 doentes, mais nove relativamente ao dia anterior.
Lacerda Sales garante que o país acompanha essa preocupação e que é por isso que foram tomadas "medidas reforçadas" de contenção da pandemia.

Portugal vai comprar um milhão de testes rápidos, anunciou ainda o o secretário de Estado Lacerda Sales, além dos 500 mil oferecidos pela Cruz Vermelha Portuguesa (CVP), cuja primeira tranche começará a ser recebida na primeira semana de novembro.

O Ministério da saúde irá, aliás, assinar dois protocolos com a CVP para que esta possa atuar e realizar os testes rápidos em casos de surtos com os seus postos móveis e para que possa dar formação sobre como se fazem estes testes.

Os testes rápidos permitem uma resposta de 15 a 30 minutos, o que os torna bastante úteis quando é necessário testar em massa e assim tomar-se rapidamente medidas de saúde pública para diminuir a propagação do vírus. No entanto, não são absolutamente fiáveis nos resultados negativos, devendo ser feito outro teste tradicional, em 24 horas, se houver sintomatologia. Note-se que estes testes também são realizados com recurso a zaragatoa.

Os problemas são muitos e estendem-se também ao rastreamento. "Os inquéritos epidemiológicos estão atrasados" admitiu Lacerda Sales, que adiantou que já estão a ser contactadas as escolas de enfermagem para que os estudantes possam apoiar o SNS a rastrear possíveis cadeias de transmissão do vírus.

Em Portugal, nas últimas 24 horas, morreram mais 24 pessoas e foram confirmados mais 3960 casos de covid-19 (uma taxa de crescimento de 3,18%), segundo o boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS) desta quarta-feira. A taxa de letalidade global do vírus é de 1,9% e sobe para 10,8% nos doentes com 70 ou mais anos, está nos 10,8%.
Ao todo, o nosso país regista 128 392 infeções e 2395 óbitos.

Do total de infetados, 6 596 são profissionais de saúde - 800 são médicos, 1 801 enfermeiros, 1 655 assistentes operacionais, 249 técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica e 1 925 outros profissionais. Há 4 617 recuperados.

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