Allan Sharif fugiu à prisão nos EUA e soma condenações em Portugal

Luso-americano que assaltava bancos pelo telefone está de novo a ser julgado, em Viseu, por burlas feitas a partir de Portugal a instituições financeiras no Canadá, Suíça e Inglaterra. Até na prisão fez burlas e está agora detido na cadeia de alta segurança de Monsanto

Fugiu dos Estados Unidos da América em 2003 para escapar ser detido e julgado por inúmeros crimes de burlas e extorsão com ameaças de bomba. Allan Sharif, 40 anos, é luso-americano e chegado a Portugal refugiou-se no concelho de Mangualde, onde tem familiares e de onde é originária a sua mãe. Até 2008 cometeu vários crimes, na maioria de burla e extorsão, e ficou mais conhecido por ter instigado um assalto a um banco em Miami em que convenceu um empresário português em dificuldades, Paulo Almeida, a apresentar-se ao balcão e a passar o telefone ao funcionário para Sharif, em Portugal, o ameaçar com a explosão de uma bomba se não transferisse dinheiro. Almeida acabou detido e absolvido nos Estados Unidos da América, enquanto Sharif nunca foi julgado por este caso.

Mas em Portugal foi já por quatro vezes a julgamento e soma condenações a penas de prisão. No processo principal, já transitado em julgado, foi condenado por burlas e extorsão a 17 anos de prisão. Num segundo julgamento, por ter convencido um empresário canadiano a vir até Portugal fazer um negócio e depois o ter raptado exigindo um milionário resgate, foi condenado a dez anos prisão e o tio José Guedes a sete anos e meio. Depois foi julgado por, em 2008, quando estava detido na cadeia da Guarda, ter convencido, a troco de mil euros, um enfermeiro da prisão a fornecer-lhe um telemóvel e burlou uma imobiliária do Algarve. Acabou punido com mais dois anos e quatro meses de cadeia por corrupção ativa e burla qualificada.

E tem mais processos. Detido no Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz, Sharif voltou ao crime de burlas, quando um guarda prisional concedeu a entrada de um smartphone para voltar às burlas. Após este caso ser detetado, foi transferido para a prisão de alta segurança de Monsanto, onde se encontra atualmente a cumprir pena.

Julgado por crimes em 2007

Agora está de novo a ser julgado por burlas qualificadas, em que conseguiu que agências da Western Union (WU) transferissem para Portugal milhares de euros, sempre com contactos efetuados por telefone. Este processo está a ser julgado em Viseu e resulta de uma acusação do DIAP de Coimbra a partir de uma certidão do processo principal, já transitado em julgado, e em que Sharif foi condenado a 17 anos de prisão por crimes de burla qualificada e extorsão. Os factos são de 2007, o ano em que esteve mais ativo nos crimes via telefone.

São arguidos neste inquérito os familiares que já foram igualmente condenados no primeiro processo. O tio José Guedes cumpre uma pena de dez anos de cadeia desse caso. As primas Marisa e Cláudia Guedes foram punidas com penas suspensas, tal como o arguido Horácio Sousa. São os cinco arguidos deste caso que já está a chegar à reta final e envolve a audição de testemunhas por videoconferência desde o Canadá e o Reino Unido. Sharif fazia as burlas ao contactar telefonicamente agências da WU e os familiares eram os beneficiários das transferências de dinheiro, cumprindo os levantamentos nos CTT e no BCP de Viseu.

Quem ficou com o prejuízo, neste processo superior a 22 mil euros, foi a WU, uma companhia financeira que oferece serviços de transferência de dinheiro através de uma rede agentes e de instituições financeiras, um pouco por todo o mundo. Funciona com a entrega do dinheiro em numerário, com a WU a garantir o envio ao beneficiário indicado pelo depositante, fornecendo um código para o levantamento. Sharif conseguiu sempre, de forma ardilosa, convencer funcionários das agências a enviar dinheiro sem haver entregas, fazendo-se passar por funcionário da empresa muitas vezes e noutras ameaçando com explosão de bombas, um dos seus métodos mais antigos de atuação desde o período em que vivia nos EUA, país onde nasceu na cidade de Nova Iorque.

Justiça americana recusou cooperar

Neste processo agora em julgamento, o MP enumera, na acusação, um conjunto de crimes que acabaram arquivados por dificuldade em obter prova, com a recusa da justiça norte-americana para cooperação a ser decisiva. Os norte-americanos, que chegaram a pedir a extradição, recusada por Portugal, consideram que deve ser julgado por um Grande Júri já que as vítimas são empresas e pessoas americanas, mesmo que num conjunto de crimes Sharif estivesse já em território português e usasse o telefone para a atividade criminosa.

Os procuradores arquivam o caso do assalto ao banco de Miami e ainda outras situações em que Sharif ameaçou com bombas quatro bancos nos EUA: Deutsche Bank, Bank of New York, Bank of America e Societé Generale. Em janeiro de 2008, Allen Sharif foi pronunciado por oito crimes de ameaça de armas de destruição massiva contra pessoas e bens dos Estados Unidos e o Departamento de Justiça norte-americano recusou executar os pedidos das cartas rogatórias das autoridades portuguesas por querer a extradição de Sharif.

Restaram os crimes que estão relacionados com o processo principal não relacionados com os EUA e para os quais foi possível recolher prova. Os crimes agora em julgamento são três. Na primeira situação, em 16 de agosto de 2007, Allen Sharif logrou convencer, em contacto telefónico, uma funcionária de uma agência da Western Union no Canadá que era Tom Sanders, funcionário da empresa e que estaria a carregar um programa novo no sistema informático. O objetivo era que a funcionária usasse as suas credenciais para fazer transferência. E ela caiu no logro e, em seu nome, efetuou cinco transferências para Portugal, para os CTT de Viseu. Uma tinha José Guedes como beneficiário e as outras quatro Horácio Sousa. O primeiro, acusa o MP, fez o levantamento nos CTT da Loja do Cidadão e o segundo na loja dos CTT no Bairro das Mesuras. Mas três delas já tinham sido canceladas e só conseguiram levantar 5737 euros, tendo um montante quase igual sido cancelado. O prejuízo ficou com a Western Union.

No segundo caso, em 13 de dezembro de 2007, Sharif telefonou para a loja da WU na estação de Baumgarten na Suíça e, com o argumento de que era cliente habitual e havia uma anomalia em algum terminal de transações passadas, convenceu o funcionário a fazer seis transferências para Portugal no valor de 9700 euros. O beneficiário de todas foi Cláudia Guedes, tendo Sharif falado com o tio ao telefone antes da prima ter sacado o dinheiro em lojas do CTT e no balcão do BCP.

Em 27 de dezembro de 2007, aconteceu nova burla. O luso-americano apresentou-se novamente como colaborador da WU perante o operador de uma loja em York, Inglaterra. E convenceu-o a fornecer-lhe o número de agência e de sequências de cartão, que são de uso interno exclusivo da WU. Assim, conseguiu fazer cinco transferências no total 6650 euros em que a beneficiária foi a prima Marisa Guedes e o tio José Guedes. O dinheiro foi levantado no BCP e nos CTT.

Além de Sharif, José Guedes é o único dos arguidos preso. O MP considera que todos sabiam das intenções de Sharif e colaboraram para poderem beneficiar dos montantes captados fraudulentamente ao verem que o luso-americano vivia com gastos acima da média. Reclama a devolução solidária dos montantes em causa, no total de mais de 22 mil euros. Já tinham sido condenados no processo principal a devolver mais de 90 mil euros.

Neste julgamento em Viseu Allan Sharif ainda pediu ao coletivo de juízes para não estar presente nas sessões mas o pedido foi rejeitado. Entenderam os juízes que estando detido em Monsanto não há nada que o impeça de estar presente no julgamento.

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