Alcoólicos Anónimos. Pedidos de ajuda duplicaram na pandemia

A maioria dos grupos espalhados pelo país ainda não voltou a reunir presencialmente. Mas à distância de uma chamada ou de um computador, os Alcoólicos Anónimos estão a ajudar cada vez mais pessoas a deixarem de beber.

"Nada substitui o abraço e o afeto com que as recebíamos, nas reuniões presenciais, mas estamos sempre aqui, deste lado. Acho que as pessoas perceberam isso". É pelo menos esse o sentimento de Fátima, membro dos Alcoólicos Anónimos (AA), quando olha para os números de pedidos de ajuda, através do número de telefone que aparece no site. Porque as chamadas "mais do que duplicaram", como revela ao DN António, atual secretário-geral da instituição. E foi essa reflexão que os AA fizeram na tarde desta terça-feira (30 de junho), a partir da plataforma zoom, com testemunhos de alguns membros, tentando de alguma forma expressar para o público o que aconteceu nos meses de confinamento, em que as reuniões presenciais foram suspensas.

E foi Mário Marques, o psicólogo clínico que atualmente preside aos AA, quem deu conta dessa dinâmica que acabou por acontecer desde que foi decretado o estado de alerta, e mais tarde de emergência, devido à pandemia: "no espaço de duas semanas, cada sala teve a capacidade de se reorganizar". Mais tarde, António confirmou ao DN que "os AA passaram de quatro reuniões online, por mês, para perto de 60".

Entretanto, com o desconfinamento, alguns grupos do país já voltaram a reunir presencialmente, mas a maioria continua a fazê-lo via zoom ou Skype. Até porque o maior número de membros está concentrado na área da grande Lisboa - e como se sabe, o número de casos de infeção obrigou a cuidados redobrados.

Na conferência desta tarde os AA contaram com o testemunho de dois "companheiros" (como se tratam entre si): Fátima e Manuel, a partir de Lisboa e Porto, respetivamente, contaram as suas experiências no caminho para deixar de beber, que é permanente. "Nós não somos contra a bebida. O que temos presente é esta espécie de ovo de Colombo: se eu não beber o primeiro copo não me embebedo", contou Fátima, que há muitos anos encontrou nos AA "a solução para parar de beber". Mas dar esse primeiro passo é, na maioria das vezes, o mais difícil. Ela conseguiu, como milhares ao longo dos anos em Portugal (e no mundo).

Manuel foi autor do testemunho mais impressionante da sessão, pois que depois entrar nos AA, conseguiu "trabalhar mais de 30 anos diretamente com álcool, por vezes como provador de vinhos, sem nunca mais beber". A história dele com a adição começou muito cedo. A partir ecrã partilhou a memória mais antiga que guarda, de quando tinha seis ou sete anos: "na minha família havia sempre uma caneca de vinho em cima da mesa. Um dia deram-me tanto a beber que fiquei em coma. Mas era natural, naquele meio e naquele tempo os mais novos beberem vinho. Depois, o que me levou à degradação foram vários fatores; ir estudar para fora, nunca me faltar dinheiro, e mais tarde a tropa no Ultramar".

Manuel afaga o cabelo branco enquanto recorda o calvário vivido desde que regressou a Portugal. Já casado, a mulher percebeu que não bebia apenas uns copos de vez em quando, mas que o consumo era recorrente. E convenceu-o a ir a uma reunião de AA. Essa primeira experiência não correu bem. Nem sempre corre bem à primeira, e a organização sabe disso. Manuel haveria de bater no fundo, quase perder mulher a filho, até perceber que o caso era mesmo sério. Sujeitou-se a um mês de internamento, ao mesmo tempo que dois companheiros dos AA lhe faziam o acompanhamento. "Quando lá cheguei, não me sentia ninguém. Eles disseram-me que iam tatar de mim. E trataram". Manuel está há 39 anos sem beber, e desses, 30 foram passados na área vinícola. "Muitas vezes o mais difícil era depois das provas de vinho. Porque havia sempre convites para ficar e provar uma broa, um queijo...confesso que muitas vezes fugi".

Números por apurar no desconfinamento

O presidente dos AA desconhece ainda se no período de desconfinamento aumentou ou não o consumo de álcool ou as recaídas, uma vez que ainda não são conhecidos os números. Mas Mário Marques destacou a rede de apoio dos AA e a forma como a internet se tornou uma alternativa. Também o secretário-geral sublinha outro ponto importante: "num primeiro contacto, o facto de a pessoa estar atrás de um computador, pode ajudar a vencer a questão da timidez, da vergonha e do anonimato". Mas qualquer um dos responsáveis considera que essa "camada protetora" é apenas um primeiro passo, que não substituirá a presença física dos companheiros.

"Isto só foi possível porque existiam laços anteriores que são uma mais-valia que os AA trazem", disse Mário Marques, fazendo fé no método dos 12 passos (Método Minesota), que é "muito mais do que uma filosofia de recuperação".

Os Alcoólicos Anónimos são "uma comunidade de homens e mulheres que partilham entre si a sua experiência, força e esperança para resolverem o seu problema comum e ajudarem outros para se recuperarem do alcoolismo".

Nos AA, o presidente e o vice-presidente são os únicos não-alcoólicos da Associação. São eles que dão a cara e protegem os membros não só da sociedade, "mas essencialmente deles próprios", como refere um dos memebros da direção.

Quem são os AA

Não há um perfil-tipo do alcoólico em Portugal, mas sabe-se que são, ainda, muito mais homens que mulheres. "O alcoolismo feminino tem umas quantas particularidades: É mais tardio, normalmente ligado ao ninho vazio, sintomatologia depressiva. É mais isolado", reconhecem os especialistas.

Os AA nasceram em 1935 nos Estados Unidos da América, por iniciativa de um corretor da Bolsa de Nova Iorque, e do seu médico, ambos alcoólicos. Chegaram a Portugal nos anos 70, pela mão de ingleses, nas Janelas Verdes, em Lisboa. Como é que se chega aos AA? Basta aceder ao site onde há um telefone e um e-mail de ajuda, com indicação das reuniões a nível nacional. Quem dá esse primeiro passo, está pronto para iniciar a caminhada.

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