Quando a força de uma mulher acaba no fundo de uma garrafa

Dependência da bebida tem vindo a ganhar terreno entre as mulheres. As que pedem ajuda também são mais

No hall do hotel de Fátima vive-se um ambiente de quase-festa, entre famílias. Há casais muito novos, crianças pequenas, adolescentes de braço dado com os pais. Vieram de todo o país para a VII Convenção Nacional dos Alcoólicos Anónimos, para partilhar experiências e discutir temas que conhecem tão bem, como a importância do padrinho/madrinha, figuras tão importantes na recuperação, ou os estados de alma de cada um, que é um caso diferente. "Uma reunião de AA é o lugar onde os perdedores se juntam para falar das suas vitórias", lê-se no programa, em nota de rodapé. A jornada há de servir para muito mais do que isso, mas serve sobretudo para conviver. Depois de terem descido aos infernos da dependência, o doce sabor da abstinência também se sente ali, nos amigos novos, nas famílias recuperadas.

Bebe-se menos em Portugal, mas o consumo de álcool começa cada vez mais cedo, entre os jovens, e regista-se um aumento do número de mulheres dependentes. Se esta já era a perceção de Domingos Neto, enquanto médico-psiquiatra a trabalhar com alcoólicos há mais de 30 anos, cimentou-a agora na qualidade de presidente da direção dos Alcoólicos Anónimos, depois de conhecido o resultado de uma sondagem efetuada entre os membros da organização, ao longo de três meses (Fevereiro-Abril) deste ano. Foi esse estudo que permitiu chegar ao protótipo do alcoólico em Portugal: A maioria (73%) são homens, mas as mulheres atingem já os 26% nas reuniões semanais. A sondagem deixa perceber também que a maioria (52%) está empregada (ao contrário do preconceito que tantas vezes atribui a dependência do álcool a situação de desemprego), 17% dos membros são desempregados, 26% reformados, 4% sem situação laboral definida e ainda 1% de estudantes. A maioria são solteiros e divorciados, e 48% ainda são casados. De resto, entre as mulheres, as fases seguintes ao divórcio representam um período crítico no que toca ao consumo e início da dependência de álcool.

Foi assim com Ana, 69 anos, técnica de saúde em Lisboa. Tinha 31 anos quando começou a beber. "Eu gostava de dizer que comecei a beber porque me divorciei, mas na verdade eu é que me quis divorciar. E comecei a beber porque não aguentei todos aqueles sentimentos. Fiquei com um filho pequeno, com seis anos. E percebi que quando nos divorciamos, vai embora o mesmo pacote que recebemos quando nos casamos". Quer dizer com isto que foi embora o marido, mas também uma série de amigos. E tudo isso a fez sentir-se muito mal, cheia de angústias e sentimentos de culpa. "O álcool foi um refúgio. Eu não considerava que fosse uma coisa muito grave...era importante porque me tirava a ansiedade e me punha a dormir", lembra agora.

Pode parecer estranho, mas Ana faz parte daquele grupo de mulheres dependentes que "nunca gostou do sabor do álcool". Bebia sobretudo gin, rum, sempre com o objetivo de ficar bêbeda, mesmo. "Era mesmo para cair para o lado. E como eu nunca tinha bebido, sempre fora conhecida como aquela que não gostava de álcool, qualquer quantidade pequenina a colocava assim, a dormir. Passaram dez anos, assim, de períodos intercalados em tratamentos de ambulatório. Aos 41 anos, conhecia de nome os Alcoólicos Anónimos. "Como técnica de saúde, tinha mandado muita gente para lá".

Nesse tempo depressivo, falava muitas vezes para as linhas de apoio. Do lado de lá, a pessoa que a atendia sugeriu-lhe os AA. Ana foi lá no dia seguinte. Até hoje, nunca mais deixou de frequentar as reuniões. E nunca mais bebeu. Ontem de manhã, quando falava ao DN num intervalo da convenção que decorre em Fátima, durante este fim de semana, Ana sublinhou que, ainda hoje, as reuniões são muito importantes. "São o meu chão, desde 1988. Já tinha esgotado todos os recursos que havia na altura para pedir ajuda para o mal que me sentia. Eu sabia que tinha um problema de álcool muito grave. Andei dez anos em médicos e psiquiatras, a fazer psicoterapia, a tomar imensa medicação, e nada resultava. Foi ali que me tratei. E não vejo o meu mundo sem as reuniões".

Do choque às reuniões de amigos

A primeira impressão de uma reunião de AA está longe de ser perfeita, no caminho da recuperação. Mas terá sempre um efeito marcante para quem lá entra, seja de que forma for. Para Isabel, 63 anos, a experiência foi dúbia. "Foi de tal forma, o que eu vi ali era de tal maneira aterrador, as pessoas, tudo, que eu nunca mais bebi na vida durante 10 anos".

O alcoolismo de Isabel divide-se em dois momentos: entre 1996 e 2006, e de então para cá. Manifestou-se aos 40 anos, também na sequência do divórcio. "Nunca gostei de álcool, toda a vida odiei. Mas muitos anos atrás, numa festa de família, bebi um copo de champanhe com o estômago vazio, e ficou-me a memória do efeito de extensão, lassidão, um bem-estar imediato. Essa memória de prazer ficou-me. E foi essa mesmo que fui buscar, quando a minha mudou de tal maneira, que passei a sair em grupos, depois da separação".

Começou nessa altura a viver uma espécie de febre de sábado à noite, em que ia para as festas com as amigas. A tal memória funcionou como muleta para se sentir "mais entrosada". Começou por beber cerveja - que era o mais barato. Rapidamente a necessidade de sábado se estendeu as outros dias da semana. Isabel casa-se de novo e o marido chama-a a atenção para a maneira como bebia, todos os dias, qual "bebedora pós-laboral". Em 2006, queria parar e já não conseguia. "Arranjava doenças, manipulava o meu filho e o meu marido de todas as maneiras, sempre com o objetivo de ficar sozinha e beber até apagar".

Lembrou-se então de uma entrevista que passara na TV com alguém dos AA. Foi à lista telefónica e procurou o número. Disseram-lhe o dia da reunião e lá foi, nos Anjos, em Lisboa. A experiência foi a que se sabe, mas teve pelo menos o efeito de a parar, como se fora um "tratamento de choque". Nunca mais foi, o marido também não entendia muito bem a filosofia de AA (que contam com o grupo de Al-Anon, para os familiares). Porém, divorciou-se de novo. "O mundo desabou de novo e eu pensei que só um copo não me faria mal. Na primeira semana era só um copo, de whisky, para relaxar. Mas rapidamente voltei aos consumos que tinha e aos comportamentos, desde esconder as garrafas a esconder-me do meu filho, que nessa altura já era um adulto".

O clique acontece quando um dia o filho entra em casa, a olha nos olhos e lhe diz "mamã, tu estiveste a beber". E pior, quando noutro dia ele olhou para ela e já não disse nada. "Eu achei que o meu filho tinha desistido de mim", recorda Isabel. Foi um mês e meio de consumo desenfreado, entre o primeiro copo e esse dia. "Eu vi uma tristeza imensa no olhar dele. E percebi que ele tinha desistido de mim". Foi então que ela lhe pediu o que antes recusara: que a levasse a uma reunião de AA, foi assim que encontrou este grupo, há dez anos, onde permanece.

Percebe-se a amizade com Ana (que conheceu nas reuniões), e com muitos outros membros dos 300 que por estes dias estão reunidos em Fátima. Os AA sobrevivem inteiramente na base das doações dos seus membros. Não há quotas, mas nas reuniões há uma caixa ou um saco onde cada um deposita a quantia que quiser, se quiser.

Criado em 1935 nos Estados Unidos da América, por iniciativa de um corretor da Bolsa de Nova Iorque, e do seu médico, ambos alcoólicos, os AA chegaram a Portugal nos anos 70, pela mão de ingleses, nas janelas verdes, em Lisboa. Como é que se chega aos AA? Basta aceder ao site www.aa.portugal.org, onde há um telefone e um e-mail de ajuda, com indicação das reuniões a nível nacional. Quem dá esse primeiro passo, está pronto para iniciar a caminhada.

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