Quando tudo falha, há uma porta aberta nos Alcoólicos Anónimos

Os 80 centros de Alcoólicos Anónimos em Portugal dão apoio a cerca de 400 pessoas, espalhadas por todo o país. Há mais homens do que mulheres

"Para se fazer uma reunião de AA (Alcoólicos Anónimos) basta dois alcoólicos e uma cafeteira de café". O retrato traçado por Marta Pratas, presidente da direção nacional da Associação, pode parecer simplista mas é testado com sucesso todos os dias, de norte a sul do país, onde existem cerca de 80 centros. Basta isso para partilharem as suas angústias e medos. Para o resto está lá a associação, feita de homens e mulheres que partilham entre si a sua força e a sua esperança.

Ora, se quando chegam não há força nem esperança, mas antes "um abismo, uma escuridão, um sentir que a vida está completamente desgovernada", o que pode prender um alcoólico que, finalmente, arranja coragem para ir aos AA? "Percebe-se que os membros falam de coisas muito parecidas que aconteceram no passado, e que sãos muito iguais ao de quem está a chegar. A pessoa sente-se perfeitamente acolhida e quando percebe que do outro lado as pessoas conseguiram ser felizes...isso é a primeira motivação". O difícil é chegar aí, ao ponto de aceitação.

Achava que sozinho conseguia superar. Tive que me render e mudar tudo na minha vida

Foi assim com Mário, já lá vão 13 anos e meio. O meio conta tanto como todos os outros anos, todos os meses e dias. Agora já não é uma luta diária tão intensa e dura como foi, mas continua a ser uma luta, essa de estar atento todos os dias, para não recair, tal como contou ao DN durante a conferência anual dos AA, que teve lugar recentemente em Fátima.

"Eu estava em tratamento, internado, e foi-me recomendado que frequentasse reuniões dos AA. A verdade é que foram esses encontros que me proporcionaram um ambiente de recuperação que sozinho não tinha conseguido. Funcionamos muito em grupo. É a base de toda a estrutura. Comecei a recuperar, aos poucos fui-me apercebendo da grande vantagem que era estar junto de indivíduos que tinham os mesmos objetivos na vida que eu". O primeiro passo dessa caminhada é o mais difícil: aceitar que existe o problema. "Infelizmente para mim demorou imenso tempo, mas ainda cheguei a tempo. Tive imensas dúvidas. Achava que sozinho conseguia superar. Tive que me rendar e mudar tudo na minha vida. Não é só deixarmos de beber. É importantíssimo melhorar a vida. E a minha vida tem melhorado substancialmente ao longo deste tempo", sublinha Mário, que já tinha perdido quase tudo: "Tinha-me perdido a mim, tinha gravíssimos problemas familiares, de saúde, profissionais."

Beber para esquecer a guerra
Mário lembra-se bem da primeira reunião onde foi, no Estoril. "Estava imensa gente e eu não estava à espera disso". De discurso fácil, ensaiou umas palavras que afinal não conseguiu dizer. Depois do tratamento regressou a casa e ingressou no grupo da terra onde mora. "Éramos menos e tornou-se muito mais fácil. Sentia grande necessidade de falar". Era a mesma que trouxe da guerra do Ultramar. Foi por causa dela que começou a beber, teve muitas fases, e numa delas entrou numa espiral negativa tal, que o levou ao tratamento médico. "Conheço muita gente que não faz tratamento, ingressa diretamente em AA e tem tido sucesso com a recuperação", sublinha Mário, que já apadrinhou vários membros ao longo destes anos. "Hoje sou um homem feliz, tenho uma vida fantástica". Recuperou a confiança das filhas e da mulher, que embora sempre o tenha apoiado, muitas vezes desconfiou das saídas para as reuniões. Foi quando ele a incentivou a procurar o grupo de Al-Anon, destinado aos familiares. Não só para perceber os 12 passos que um alcoólico tem de dar, como para ganhar forças no apoio à recuperação. "Porque é natural que ao início exista uma certa desconfiança por parte dos familiares. Até se readquirir demora tempo", sustenta Mário, que ainda hoje tem necessidade de participar nas reuniões, muitas vezes dando o seu testemunho.

Nos AA, o presidente e o vice-presidente são os únicos não-alcoólicos da Associação. São eles que dão a cara e protegem os membros não só da sociedade, "mas essencialmente deles próprios", considera Marta Pratas, cuja formação em serviço social e psicologia lhe permite conhecer como poucos as várias facetas de um alcoólico. Trabalha na unidade de alcoologia de Lisboa e é presidente dos AA há oito anos. Em breve, deixará o cargo, que passará a ser ocupado por Domingos Neto.

Quem são
Não há um perfil-tipo do alcoólico em Portugal, mas sabe-se que são muito mais homens que mulheres. "O alcoolismo feminino tem umas quantas particularidades: É mais tardio, normalmente ligado ao ninho vazio, sintomatologia depressiva. É mais isolado". Se a crise contribuiu para um aumento dos casos? "A AA não se mete em controvérsias. Não opina em nada que se prensa com o sistema, de âmbito social ou político". Os AA nasceram em 1935 nos Estados Unidos da América, por iniciativa de um corretor da Bolsa de Nova Iorque, e do seu médico, ambos alcoólicos. Chegaram a Portugal nos anos 70, pela mão de ingleses, nas janelas verdes, em lisboa. Como é que se chega aos AA? Basta aceder ao site www.aa.portugal.org, onde há um telefone e um e-mail de ajuda, com indicação das reuniões a nível nacional. Quem dá esse primeiro passo, está pronto para iniciar a caminhada.

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