"A Nazaré não tem gente a mais. Tem gente a menos"

O presidente da Câmara da Nazaré acredita que na vila estão a cumprir-se todas as regras sanitárias impostas pela DGS nesta pandemia. À falta do maior fluxo de turismo internacional, a vila piscatória é procurada pelos portugueses, sobretudo do norte do país, que enchem a marginal, bares e restaurantes. E pelas empresas de Tuk Tuk, que têm levado à intervenção diária da PSP.

"A Nazaré está com gente a menos, ainda que tenha muita gente". Walter Chicharro, presidente do Município, reage assim quando confrontado com o registo de enchentes, sobretudo ao fim de semana.

"A Nazaré tem menos gente, face ao que têm sido os últimos anos. É claro que tem muita gente, e a própria câmara tem sido agente de sensibilização que visam naturalmente reduzir o perigo de contaminação". O autarca garante que o município não se tem poupado a esforços, dentro do que lhe compete e pode fazer, para garantir que as medidas sanitárias sejam cumpridas. Mas essas dizem respeito sobretudo à praia - com carga máxima de 17 mil lugares - e não ao espaço público da vila. Aí há painéis que indicam sentidos específicos de entrada e saída, para além de "um conjunto de assistentes de praia que a própria câmara colocou, recorrendo a empregos de verão, apesar de não ter a competência de fiscalização". Walter Chicharro já tinha alertado para a questão em junho último, em entrevista ao DN.

Apesar das enchentes na vila, os números de infeção por covid-19 na Nazaré não têm mexido desde há várias semanas. Esta sexta-feira contabilizam-se 11 casos no total, desde o início da pandemia, dos quais 7 estão já recuperados. Não há, por agora, nenhum deles em vigilância ativa.

Nos últimos fins de semana a marginal da Nazaré tem estado à pinha, tal como as esplanadas de cafés e restaurantes. "Há demasiada gente na rua. De tal forma que acabei por colocar a máscara, mesmo ao ar livre", diz ao DN Ana Martins, que veio do norte com a família para passar o fim de semana na pitoresca vila, mas "não vinha à espera de tanta gente. A maioria das esplanadas não tem distanciamento, e a marginal é como vê". A família de cinco pessoas (dois adultos e três crianças) está sentada num bar de praia, já que o tempo está encoberto. De resto, é notório o contraste: o areal está pouco concorrido, ao contrário da marginal e das esplanadas. É sábado, 09 de agosto, e a cafetaria e restauração não têm mãos a medir.

Walter Chicharro percebeu que o fluxo de trânsito e de peões era muito. E foi por isso que a Câmara deliberou "fechar a marginal da Nazaré a norte da avenida Vieira Guimarães, às sextas-feiras e sábados a partir das 17 horas, e aos domingos a partir das 15 horas, para garantir, nestes dias de maior afluência, que as pessoas podem andar nas zonas de maior circulação automóvel também, garantindo o espaçamento que é necessário".

Já no que respeita aos restaurantes, o autarca acredita que "a maioria cumpre as normas de distanciamento e limitação de clientes, mas estão a trabalhar muito. Porque temos cá muita gente". Mas Walter insiste que essa competência de fiscalização é das autoridades policiais e não da autarquia. "Quero acreditar que estarão a controlar esta matéria, em particular as horas de encerramento e o distanciamento nos restaurantes e nos bares".

Na rua, as chambristas continuam a queixar-se do negócio - como sempre - apesar dos alojamentos com grande procura.

Subindo ao Sítio, em direção ao Farol da Nazaré - de onde no inverno se avistam as ondas gigantes - há um nicho de mercado que explodiu recentemente: os tuk-tuk, que dividem agora com os peões a estrada estreita e íngreme.

Os tuk tuk"s são uma realidade na zona do farol nos últimos dois ou três anos. Walter Chicharro confirma que apenas "dois deles estão licenciados, estamos agora em fase final de encerramento do processo para mais duas licenças". E confirma também que essa tem sido uma dor de cabeça constante para a autarquia e para as autoridades: "o que nos aconteceu é que apareceram tuk tuk's de outros destinos, particularmente da zona de Lisboa, e alguns deles estão a subverter completamente as regras da DGS". Mas esse abuso não é o único problema que o autarca vislumbra na estrada, que é nacional, à responsabilidade das Infraestruturas de Portugal (IP), embora estejam a decorrer negociações com aquele organismo para que a estrada passe para a jurisdição da Câmara. Enquanto isso não acontece, a IP terá optado por encerrar parte da estrada, por questões de segurança.

Turistas à procura das ondas...e do cenário da novela

Apesar de ser verão, há quem se faça ao caminho à espera de ver ondas gigantes - que só se vislumbram no outono e inverno, como aquelas que colocaram no mapa a praia do norte, através do surfista Garret McNamara. De modo que a pequena estrada - encerrada logo a seguir ao parque de estacionamento, à saída do miradouro - é, por estes dias, pequena para tanto transeunte - e para tanto Tuk Tuk.

O presidente da Câmara confirma que a situação "já levou a uma tomada de posição da autarquia junto das autoridades policiais, porque estava a gerar-se ali uma verdadeira confusão, do ponto de vista da segurança pública".

"Nunca tínhamos vindo à Nazaré, mas as miúdas tinham muita curiosidade por causa da telenovela, e acabámos por vir cá hoje", conta ao DN Susel Fernandes, que veio de Espinho com as duas filhas, de 12 e 14 anos. Neste caso, a família já sabia que não ia ver ondas gigantes, mas a vista do Farol valeu a pena. O mesmo não acontece com o casal de espanhóis que dividiu o tuk tuk com as outras quatro pessoas. Desiludidos, recusam falar a "periodistas". Em direção ao forte, é sempre a descer. Mas no regresso, Susel foi uma das clientes de um dos vários Tuk Tuk que ali fazem negócio, por estes dias.

João Cordeiro conduz um deles, com capacidade para seis pessoas, propriedade de uma empresa de Sintra. Cada passageiro paga um euro por viagem, sendo que a clientela acorre sobretudo para subir, no regresso ao Sítio. Ao DN conta que a maioria é cumpridora das normas de etiqueta respiratória e "usa máscara. Embora, quando são pessoas da mesma família, facilitamos". Já ele nunca facilita: conduz de máscara, tem o álcool gel à mão, e encontrou neste emprego um movimento que supera o da restauração, onde anteriormente tentou a sorte.

Polícia aperta o cerco aos Tuk Tuk

"Tem havido uma invasão despudorada, usando e abusando do espaço público", sublinha Walter Chicharro. Entretanto, nos últimos dias desta semana a estrada tem estado liberta, na sequência de uma queixa da IP ao comando distrital de Leiria da PSP. Um dos condutores confirmou ao DN que "nos últimos dias a polícia aparece a toda a hora, até já vieram cá com a ASAE". Mas quando acabaram as operações de fiscalizações, os carros voltam à estrada.

Alheio às quezílias e diferendos entre empresas e veículos está Cláudio Teixeira, o músico que se instalou por ali há cerca de um ano. Era ator e professor de música, mas ao fim de 10 anos cansou-se e mudou de vida. Agora, com o nome artístico de Zuko, oferece música aos visitantes, no verão, e sobretudo aos surfistas, no inverno. Escolheu a Nazaré porque a mãe já ali morava, porque cresceu naquela praia e naquele mar. "Ao fim de dois meses percebi que dava para viver disto. Arranjei uma casa e fixei-me aqui", conta ao DN, enquanto confirma que a pandemia não travou a chegada de turistas (sobretudo nacionais, agora) todos os dias.

Cláudio tenta entrosar a música com os sons da natureza. Só não o fez no período de confinamento, mas mal o estado de Emergência foi levantado, regressou. "Optei por me colocar num ponto mais afastado, precisamente para evitar ajuntamentos", sublinha. Depois da conversa volta ao seu outeiro. Algumas pessoas param para o ouvir, fala sempre em português e inglês. E deixam moedas na mala de viagem aberta, com a indicação da página de Instagram onde podem seguir o seu trabalho. Momentos antes, abraçara uma antiga aluna que passava na rua e o reconheceu: "posso abraçar-te ou tens problemas por causa do covid?". Que não, disse ela. Cláudio toca viola e canta originais. No intervalo das músicas, deixa sorrisos e mensagens. "A vida é para ser vivida agora. O amanhã não existe". E o turismo da Nazaré parece escutá-lo.

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