Trump e a guerra à arte

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A cerimónia da 68.ª edição dos Grammy Awards, na madrugada de segunda-feira, dia 2, serviu para serem distribuídos os mais importantes prémios da indústria discográfica, mas não só, pois também foi palco de uma já longa batalha entre grandes nomes das artes nos Estados Unidos e a Administração de Donald Trump – algo que, aliás, já se verificou durante o primeiro mandato do magnata de Nova Iorque.

Desta vez, no centro das críticas esteve a polémica atuação do ICE, força policial federal que permite aos seus agentes atuarem mascarados, sem identificação, circulando em carros descaracterizados e com autorização para poderem, por exemplo, entrar em casas sem mandato judicial à procura de imigrantes ilegais. As ligações de Trump e Jeffrey Epstein também não foram esquecidas. O apresentador dos Grammy, Trevor Noah, associou o interesse de Trump na Gronelândia ao facto de já não estar disponível a ilha particular de Epstein, onde este organizava festas com convidados famosos e para onde levava as suas vítimas de tráfico sexual, um dos crimes pelo quais foi detido em 2019 (no mesmo ano, ter-se-á suicidado na cela). Trump não gostou e respondeu com a ameaça de um processo judicial.

Calar os críticos, seja de que maneira for, é, aliás, um modus operandi que o presidente norte-americano usa frequentemente. Vários documentários sobre a ascensão de Trump ao poder, identificam que o momento que o fez avançar com uma candidatura à Presidência foi o roast que lhe dedicou Barack Obama no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, em 2011. Trump assistiu a tudo in loco e não disfarçou o embaraço, tendo, no entanto, transformado o sorriso amarelo daquela noite em combustível para, cinco anos depois, ser ele a suceder a Obama na Casa Branca.

Mais recentemente, perante a ameaça de um processo judicial (Trump queixou-se da edição de uma entrevista a Kamala Harris, que visaria favorecer a sua rival nas Presidenciais de 2024), a Paramount, detentora da CBS, aceitou pagar 13,5 milhões de euros ao líder nos EUA e, poucos dias depois, foi anunciado o fim do programa The Late Night Show de Stephen Colbert, comediante e crítico feroz de Trump.

Os exemplos não ficam por aqui: outro comediante, Jimmy Kimmel, também viu o seu talk show em risco: a ABC (detida pela Disney) chegou a suspender o programa, alegando que a decisão tinha a ver com comentários que Kimmel fizera sobre a morte do ativista e aliado de Trump, Charlie Kirk, mas recuaria na intenção após uma onda de apelos ao boicote dos serviços da Disney por parte dos fãs do comediante (acrescente-se que a ABC também enfrentava a ameaça de ver suspensa a licença de emissão pelo regulador norte-americano de telecomunicações).

Outro exemplo da relação atribulada de Trump com o mundo da artes foi a decisão de juntar o seu nome ao de Kennedy no famoso Centro Cultural que anualmente distingue personalidades culturais, o que levou a uma debandada de vários artistas que tinham espectáculos já marcados na sala. A resposta chegou esta semana: o presidente dos EUA mandou fechar o centro durante dois anos para obras de remodelação.

Aos poucos Trump pode ganhar algumas batalhas neste combate. Mas não a guerra contra os artistas que o contestam. Um trecho da letra da Canção Sem Final, de A Garota Não, sintetiza bem o porquê dessa inevitabilidade: “Podem decretar mandar calar-te; Dizer que a nossa voz é um enguiço; podem decretar o fim da arte; E a gente faz uma canção sobre isso.”

Editor Executivo do Diário de Notícias

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