Donald Trump, na madrugada de segunda-feira, 2 de fevereiro, classificou os mais importantes prémios da indústria discográfica – os Grammy Awards – como “virtualmente intragáveis” (uma tradução idiomática para português da expressão “virtually unwatchable”), numa mensagem que o presidente dos Estados Unidos deixou na sua rede social – a Truth Social – na sequência da gala que reuniu, para além da exuberância habitual do figurino dos artistas, vários crachás com uma mensagem muito clara dirigida à polícia de imigração norte-americana: “ICE out” (fora com o ICE). Se a subtileza daqueles símbolos ostentados em vestidos e lapelas de fatos já estava a cumprir a função de criticar a ação do ICE, as palavras dos vencedores da noite foram mais além e não deixaram margem para dúvida, como aconteceu com o músico porto-riquenho Bad Bunny, que, ao ganhar o Grammy de Álbum do Ano com o disco completamente falado em espanhol intitulado Debí Tirar Más Fotos, afirmou: “Temos de ser diferentes. Se lutarmos, temos de o fazer com amor. Nós não os odiamos. Nós amamos o nosso povo, nós amamos a nossa família.”Apesar da expressão “ICE out” ser a mensagem mais frequente nos artistas que desfilaram naquela noite na Crypto.com Arena, em Los Angeles, o que incomodou mesmo Donald Trump foi a intervenção do humorista Trevor Noah, que cumpriu a função de anfitrião da gala dos Grammys.Na sequência da entrega do prémio Canção do Ano à cantora Billie Eilish, com a música Wildflower, Trevor Noah deu um toque pessoal ao momento: “É um Grammy que todos os artistas querem, quase tanto como Trump quer a Gronelândia”, atirou o apresentador, numa referência à ilha cobiçada pelo presidente norte-americano, acrescentando que “faz sentido porque, desde que Epstein morreu, precisa de uma nova ilha para passar algum tempo com Bill Clinton”.Esta nota de Trevor Noah surge depois de terem sido divulgados mais de três milhões de documentos relacionados com o caso Jeffrey Epstein, que mencionam várias figuras poderosas, como Bill Clinton, Elon Musk, Bill Gates e Donald Trump.Como resposta, Donald Trump argumentou que “o apresentador, Trevor Noah, seja lá quem for, é quase tão mau como Jimmy Kimmel na cerimónia dos Óscares”.Recorrendo a maiúsculas estratégicas, o que caracteriza o estilo das suas intervenções nas redes sociais o presidente norte-americano afirmou: “Noah disse, INCORRETAMENTE sobre mim, que Donald Trump e Bill Clinton passaram algum tempo na Ilha Epstein. ERRADO!!! Não posso falar pelo Bill, mas nunca estive na Ilha Epstein, nem perto disso, e até à declaração falsa e difamatória desta noite, nunca fui acusado de estar lá, nem mesmo pelos meios de comunicação social de notícias falsas.”.Donald Trump acabou por classificar Trevor Noah como “um completo falhado”, aconselhando, de forma retórica, o apresentador dos Grammys a “informar-se devidamente, e depressa”. “Parece que vou enviar os meus advogados para processar este pobre, patético, sem talento e idiota apresentador, e vou processá-lo por uma boa quantia de dinheiro”, ameaçou, acabando a intervenção com a ideia de que irá divertir-se muito com Noah neste processo.“Ninguém é ilegal numa terra roubada”O grande vencedor da noite dos Grammys foi Kenrick Lamar, mesmo que não tenha arrecadado o prémio mais apetecido - Melhor Álbum do Ano -, que foi atribuído a Bad Bunny. Ainda assim, o rapper norte-americano ganhou em cinco das nove categorias para que estava nomeado, incluindo a Melhor Gravação do Ano, com Luther, numa colaboração com SZA.As outras quatro categorias são todas em torno do Rap e incluem a Melhor Performance de Rap Melódico, novamente com Luther, em colaboração com SZA, Melhor Canção de Rap, com TV Off , junto com Lefty Gunplay, Melhor Performance de Rap, que Kendrick Lamar conquistou junto com Clipse e Pharrell Williams, com o tema Chains & Whips, e, por fim, o Melhor Álbum de Rap, com GNX.Ao obter estes títulos, Kendrick Lamar fez igualmente história ao ser o artista mais premiado de sempre nos Grammy Awards, ao conquistar, desde que participou, um total de 27 prémios. Até agora, este estatuto era detido por Jay-Z, que ganhou até agora 25 Grammys.A semelhança de Bad Bunny, também a vencedora da Melhor Canção, a cantora Billie Eilish, com Wildflower, recorreu à sua intervenção para alertar para os direitos dos imigrantes, começando por defender que “ninguém é ilegal numa terra roubada”, acrescentando que sente “esperança nesta sala”, onde muitos dos artistas mostravam os seus crachás com a mensagem “ICE out”..“Temos de continuar a lutar, a falar e a protestar. As nossas vozes importam e as pessoas importam”, afirmou, antes de concluir com um ataque: “que se f*** o ICE.”Também a cantora Olivia Dean, vencedora do prémio Artista Revelação, dedicou a sua intervenção aos imigrantes, assumindo que estava ali “como neta de imigrantes”. “Sou um produto da bravura e penso que estas pessoas devem ser celebradas”, completou, rematando que “não somos nada uns sem os outros”.Os crachás com a mensagem “ICE Out” integraram o figurino de outros artistas como Justin Bieber e Kehlani, que venceu na categoria de Melhor Canção de R&B, com Folded.Entre os outros vencedores da noite, o prémio de Compositor do Ano Não-Clássica foi atribuído a Amy Allen, que também não escondeu críticas ao ICE.A Melhor Performance Pop a Solo foi para Messy, de Lola Young, enquanto Lady Gaga conseguiu ainda reunir três prémios, entre os sete para os quais estava nomeada: Melhor Álbum Vocal de Pop, com Mayhem, Melhor Gravação de Dance Pop, com Abracadabra, e Melhor Gravação Remisturada Não-Clássica, junto com Gesaffelstein, também com Abracadabra.A língua portuguesa também subiu ao palco dos Grammys, com a atribuição do prémio de Melhor Álbum de Música Global a Caetano Veloso e Maria Bethânia, com o disco praticamente homónimo Caetano e Bethânia Ao Vivo.Numa outra nota, o Dalai Lama também foi um dos vencedores da noite, na categoria de Melhor Gravação de Audiobook, narração e storytelling, com Meditations: The Reflections Of His Holiness The Dalai Lama.Nuno Bettencourt vence com ‘Changes’O guitarrista português Nuno Bettencourt foi um dos artistas distinguidos nos Grammy Awards 2026, pela sua participação na gravação da canção Changes, dos Black Sabbath, a cargo do cantor Yungblud. Deste modo, Nuno Bettencourt, nascido na Ilha Terceira, nos Açores, venceu na categoria de Melhor Performance de Rock, com a gravação de Changes (Live From Villa Park, Back To The Beginning), durante o derradeiro concerto de Ozzy Osbourne, que morreu em julho do ano passado. Bettencourt, nessa atuação de despedida de Osbourne, tocou também com o baixista Frank Bello, o teclista Adam Wakeman e o baterista II..Na cerimónia de entrega do Grammy, os músicos subiram ao palco com Sharon Osbourne, a viúva do mítico vocalista dos Black Sabbath, que não conseguiu conter a emoção do momento. Bettencourt, depois da cerimónia de entrega do prémio a Yungblud, falou aos jornalistas, deixando críticas à Inteligência Artificial. “A imperfeição é a essência do rock’n’roll. É aí que reside a magia”, defendeu..Trump ameaça processar apresentador dos Grammys por piada sobre caso Epstein.Grammys. Bad Bunny faz história ao vencer Álbum do Ano com disco em espanhol. Nuno Bettencourt premiado