O ex-embaixador do Reino Unido nos EUA, Peter Mandelson, desvinculou-se no domingo à noite (1 de fevereiro) do Partido Trabalhista, depois de surgir em mais fotos e emails embaraçosos na última tranche do ficheiro de Jeffrey Epstein. Mas a sua relação de amizade com o falecido pedófilo, que já lhe tinha custado o cargo de diplomata em setembro, pode vir a custar-lhe também o lugar na Câmara dos Lordes, aumentando a pressão para que renuncie ao título. O caso Epstein continua a fazer baixas no Reino Unido, com André Mountbatten-Windsor (que já perdeu o título de príncipe) também de volta ao olho do furacão por causa de novas mensagens e fotos. Mas, nos EUA, a divulgação de mais de três milhões de páginas de documentos, de 180 mil imagens e dois mil vídeos continua sem trazer consequências, com o procurador-geral adjunto, Todd Blanche, a desvalorizar a ideia de haver acusações relacionadas com este processo.“Há muita correspondência. Muitos emails. Muitas fotografias. Muitas fotografias horríveis que parecem ter sido tiradas por Epstein ou por pessoas próximas”, disse Blanche no domingo, no State of the Union da CNN. “Mas isso não nos permite necessariamente processar alguém.” O procurador-geral adjunto explicou ainda que todas as vítimas de Epstein “querem ser reparadas na totalidade”, mas “isso não significa que possamos simplesmente criar provas ou inventar um caso que não existe”. Epstein vivia rodeado de pessoas famosas e influentes, tendo escapado com um acordo vantajoso após a primeira acusação (na Florida, em 2008). Em vez de ser julgado a nível federal por tráfico sexual de menores (arriscando a prisão perpétua), declarou-se culpado a nível estadual de prostituição com menores e cumpriu apenas 13 meses de prisão com autorização de saída para trabalhar. Isso permitiu que continuasse a sua atividade criminosa (suspeita-se que haja centenas de vítimas), sendo detido de novo apenas em 2019. Morreu numa prisão em Nova Iorque antes de poder ser julgado, numa morte declarada suicídio.Na campanha eleitoral, o presidente norte-americano, Donald Trump, ele próprio antigo amigo de Epstein (a relação acabou antes da primeira condenação), prometeu revelar o chamado ficheiro Epstein (que se dizia conter uma lista de nomes de eventuais clientes do pedófilo). Mas, após regressar à Casa Branca, Trump desvalorizou o caso e a procuradora-geral, Pam Bondi, disse que não haveria divulgação dos ficheiros. Foi preciso uma lei do Congresso, em resposta à pressão popular, para que os documentos vissem a luz do dia.A cache divulgada na sexta-feira (30 de janeiro) será a última, segundo o Departamento de Justiça, que ainda retém informações relacionada com pornografia ou abuso físico. E em vez de fechar o caso, os documentos aumentam a confusão, já que incluem informações incompletas e acusações sem provas (por exemplo, contra o próprio Trump, que o Departamento de Justiça diz serem “falsas”) e a referência a uma figura pública não significa que tenha participado em atividades criminosas. A censura (mal feita em alguns casos, com nomes e até fotos de jovens nuas ainda visíveis) também não ajuda à clarificação..Três milhões de páginas, 180 mil fotos e 2000 vídeos: EUA revelam o resto do ficheiro Epstein.O congressista democrata Ro Khana que, junto com um republicano, apresentou a lei que levou à divulgação do ficheiro já veio entretanto a público dizer que acredita que só metade dos documentos foram tornados público. E ameaça avançar com um processo de destituição contra Pam Bondi caso o resto do material não seja revelado. “Se os sobreviventes não estiverem satisfeitos, então Thomas Massie e eu estamos preparados para iniciar um processo de impeachment ou desacato”, indicou à NBC.Ainda não houve consequências nos EUA, mas no Reino Unido estas têm sido notórias, com o nome do irmão do rei Carlos III e de Mandelson a surgirem repetidamente no ficheiro Epstein. O antigo duque de York ainda não reagiu às novas revelações, mas no passado rejeitou “vigorosamente” todas as acusações contra si. Os novos ficheiros incluem fotografias em que André surge de gatas junto a uma mulher (o rosto está tapado) no apartamento de Epstein em Nova Iorque ou emails em que aceita reunir-se com uma russa de 26 anos “inteligente e bonita” ou em que diz “acrescenta mais um/a [informação censurada] romeno/a muito giro/a” (em inglês não é possível ver que género está a usar). No caso de Mandelson, o problema não é só a foto em T-shirt e cuecas junto a uma mulher (rosto censurado) num apartamento de Epstein em Paris. Mas o facto de ter partilhado com o pedófilo informação interna do governo e informação privilegiada, numa altura em que era ministro responsável pela pasta dos Negócios e Comércio. São cada vez mais as vozes no Reino Unido que pedem uma investigação oficial e já terá sido denunciado à polícia. Entretanto o próprio primeiro-ministro Keir Starmer (criticado pela oposição por ter lhe dado emprego sabendo que tinha tido ligação a Epstein) defende que ele devia ser expulso da Câmara dos Lordes. Mandelson anunciou a desvinculação do Partido Trabalhista para evitar “mais embaraços”, apesar de ter negado a acusação de que recebeu pagamentos de Epstein há 20 anos (exige que os bancos provem a legitimidade dos registos revelados). Mas não falou de abdicar do título (se ele não o fizer, o processo para o tirar é longo e difícil). Sobre a relação com Epstein, já tinha dito no passado: “Errei ao acreditar em Epstein após a sua condenação e ao continuar a minha associação com ele depois disso. Peço inequivocamente desculpa às mulheres e raparigas que sofreram por o terem feito.”Outras revelaçõesSarah FergusonA ex-mulher do príncipe André também volta a surgir nos últimos documentos do ficheiro Epstein, ficando tão mal na fotografia como o ex-marido. “És uma lenda. Não tenho realmente palavras para descrever o meu amor e gratidão pela tua generosidade e bondade”, escreveu Sarah Ferguson num email em 2010, já depois da condenação de Epstein. “Estou ao teu dispor. Casa comigo”, acrescenta a antiga duquesa de York, que noutro email lhe pede 20 mil libras para pagar a renda. Noutra mensagem, Sarah Ferguson felicita Epstein pelo nascimento do filho (oficialmente ele não tem filhos).Mette-MaritA mulher do príncipe herdeiro norueguês é referida mais de mil vezes nos documentos, tendo mantido o contacto com Epstein entre 2011 e 2014. “Demonstrei falta de bom senso e lamento profundamente ter tido qualquer contacto com Epstein. É simplesmente embaraçoso”, disse a futura rainha num comunicado divulgado pelo palácio real. O primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, defendeu que tanto Mette-Marit como outros mencionados deviam colaborar com a justiça em relação a tudo o que sabem.Elon MuskO dono da Tesla, Space X e X perguntou, num email enviado a Epstein em 2012, “que dia/noite será a festa mais louca na tua ilha?” Não há indicação de que Elon Musk tenha alguma vez visitado a ilha de Epstein, com o milionário a dizer no sábado que sabia que havia mensagens que podiam ser mal interpretadas mas que não quer saber disso. Só que os que cometeram crimes graves sejam acusados.