Há poucos dias, um novo estudo do Observatório das Migrações dava conta de que nunca como hoje o número de imigrantes em Portugal foi tão elevado, cerca de meio milhão de pessoas - e dava conta também de que a sua dependência de prestações sociais portuguesas é muito inferior à dos nacionais, bem como o resultado líquido das suas contribuições, desde logo para a Segurança Social, é francamente favorável a este sistema e à sua sustentabilidade. Em termos simples, os imigrantes em Portugal trabalham, ganham razoavelmente mal, contribuem muito positivamente para a segurança social, assumem profissões necessárias e a sua ausência tornaria simplesmente impossível o quotidiano atual e a economia deste país, como da generalidade dos países europeus, países envelhecidos, com falta de população em idade ativa..No entanto, a questão e a perceção social das migrações é uma das principais preocupações europeias e isso não mudará em breve. Seguramente não é alheia ao crescimento de partidos políticos de extrema-direita na Europa, que rentabilizam um discurso populista e xenófobo, de apelo ao medo e à suposta resistência contra o estrangeiro e o diferente. É possível que esta não seja uma questão central na nossa próxima campanha eleitoral para as legislativas, mas estará seguramente presente, na Europa, nas próximas eleições europeias, condicionando a formação do próximo Parlamento europeu e a próxima Comissão Europeia, tal como tem moldado a política alemã e francesa dos últimos anos..Para mais, parece transcender e baralhar as fronteiras tradicionais ideológicas, de esquerda e de direita. Há muito bem-pensante de esquerda que muda de passeio ao ver um grupo de magrebinos na rua, tal como democratas cristãos que se sentem compelidos a votar mais à direita perante a simples promessa de controlo de fronteiras. O medo é transgeracional e transversal a grupos e classes sociais. E é, estruturalmente, irracional, modelável e exacerbado por palavras e por convicções utilitárias e de conjuntura, que dispensam dados longos e análises da realidade..As esquerdas europeias não têm manifestamente conseguido criar um discurso factual e moderado, que adira à perceção dos eleitores e represente a realidade. As dificuldades dos partidos socialistas e trabalhistas europeus não são alheias a esta situação, até porque estes evitam uma discussão pública informada sobre seguramente dois dos temas que interessam os eleitores, desde logo as eventuais relações entre migrantes e criminalidade e entre migrantes e mercado de trabalho e prestações sociais. Mas, não falar, como em tantas circunstâncias da vida, e também da vida pública, é pior do que falar. Deixar a titularidade do discurso a quem o usa apenas como trampolim para o poder é acentuar uma sua eventual razão e prioridade.