Seguro e as exigências assimétricas dos “democratas”

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Desde domingo, perante a debacle do centro-direita que Luís Montenegro e os seus apaniguados poderiam ter evitado, têm desfilado pelos palcos mediáticos pessoas com responsabilidades políticas (ou aparentadas) a defender que o voto em António José Seguro é a única opção que os democratas possuem na segunda volta das presidenciais.

Não sendo muito sofisticada, a tese é convincente. Face à ameaça de um potencial caudilho, sobretudo num contexto em que em diversas geografias se vão impondo líderes que subvertem o funcionamento das instituições democráticas, derrogam o primado da lei, descredibilizam - quando não eliminam - mecanismos de escrutínio aos diferentes poderes e transformam a ordem internacional num espaço de exibição de força, Seguro oferece-nos garantias de preservação daquilo que se convencionou como democracia liberal. Dá-nos, até pela apatia que o caracteriza, perspetivas de um módico de serenidade.

Ainda que não vislumbre em Ventura os tão propalados fantasmas do salazarismo (que o próprio, ainda assim, teima em perpetuar), do fascismo e de outros “ismos” que servem o propósito caricatural de inviabilizar discussões mais profundas sobre a radicalização do espaço público e de largas franjas eleitorais, prefiro que no Palácio de Belém se sente alguém que, não obstante as suas inegáveis insuficiências, saiba interpretar o papel de árbitro e moderador. Que não é compaginável com o de um pirómano que se arroga bombeiro. Nem com o de um detonador de crises em proveito próprio.

Por maioria de razão, com entusiasmo residual e sem expectativas de maior, votar Seguro - adversário ideológico com o qual, apesar de tudo, partilho o terreno do liberalismo político - é o mínimo a fazer e que farei. Ainda para mais tratando-se de alguém que não enferma da imoralidade de José Sócrates ou do amoralismo de António Costa, ambos celebrados acriticamente por quem tratou Seguro até há meia dúzia de dias como portador de peçonha.

Não deixa, aliás, de ser curioso que muitos daqueles que, durante mais de uma década, acusaram o antigo líder do PS de não ser de esquerda - e que o apedrejaram recentemente quando não quis ser encerrado numa gaveta de pureza - usem agora a sua temperança e a recusa de frentismos para justificar o apelo ao voto do centro-direita.

A esse respeito, o espaço político em que me insiro - multifacetado, heterodoxo e órfão de liderança - tem feito do apoio a Seguro uma sinalização de virtude caricata, incentivada pelos gatekeepers do regime que, nos últimos meses, desconsideraram o mais forte candidato desse espaço, João Cotrim de Figueiredo, e tudo fizeram para manter viva a candidatura de Luís Marques Mendes, condenada ao fracasso desde a primeira hora, como deixava antever o último Congresso do PSD.

Na antecâmara da segunda volta, o argumento mais invocado é o de que estas presidenciais não se resumem ao confronto clássico entre esquerda e direita. Concedo. Vou mais longe: essa dicotomia primária estava enterrada há 40 anos e só foi ressuscitada em 2015, quando os democratas de esquerda se uniram aos enamorados por revoluções (ocorridas e por haver) para derrubar Pedro Passos Coelho.

Aos neomoderados e aos seus cúmplices deixo, pois, uma questão: se na segunda volta tivéssemos um candidato de centro-direita e um radical de esquerda, de que lado estariam? Do lado de quem reconhece as imperfeições do nosso regime e equaciona reformá-lo ou do de quem fantasia com o fim da democracia burguesa? Não é a só às mãos de extremistas que as democracias sucumbem - é também às de bonzos e às suas exigências morais assimétricas.

Consultor de comunicação

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