Os suecos de Moura e o nosso racismo estrutural

A primeira reação àquilo que foi descrito nos media como uma tentativa de homicídio motivada por ódio racial é das melhores evidências do racismo pervasivo, estrutural, que tantos negam. E um bom caso de estudo sobre a abordagem mediática da "raça" e a forma como coletivamente se lida com ela.

"Homem de 53 anos tenta matar família sueca com sete filhos em Moura. PJ acredita que incidente foi motivado por ódio racial."

Este título de sábado do Observador, partilhado no Twitter, causou várias interrogações e comentários perplexos. "O que leva a polícia a falar de "ódio racial"?"; "O ódio racial é que não entendi"; "A notícia é estranha porque diz que a família é sueca e fala em ódio racial, o tipo percecionou a família como sendo de "raça diferente" por serem suecos?"

Quando se percebeu que, de acordo com o corpo das notícias, um dos membros do casal de suecos é um homem de origem não europeia (uns relatos situam-na como africana, outras curda), as pessoas que tiveram a reação descrita assumiram que ao lerem sueco, viram um louro alto de olho azul. À partida, tal não é estranho, já que a imagem que temos dos suecos é essa. Mas que mesmo perante a imputação policial de ódio racial não ocorresse que estes poderiam não se conformar ao estereótipo já é um pouco menos fácil de compreender - é uma espécie de cegueira que deve fazer-nos pensar.

É como se a realidade, com a ajuda dos jornais, tivesse criado uma experiência prática em que coisas, como os estereótipos raciais e tudo o que eles implicam, que por vezes parecem tão difíceis de perceber, ficam claras: quase ninguém achou que podia haver uma família de suecos numa caravana (logo, brancos ricos e turistas) a passar no Alentejo com um perfil "racial" que predispusesse um racista a disparar contra eles.

E quase ninguém pensou isso porque temos, em conjunto, um olhar que, por mais que muitos de nós tentem "reeducá-lo", está ensopado do racismo, no sentido da classificação e "leitura" das pessoas em função das suas características étnico-raciais, no qual fomos educados.

A chave do mistério da família sueca foi aliás tão inesperada, mesmo para aqueles que se consideram antirracistas, que houve quem se zangasse por achar que os jornais estavam a "esconder" o facto de se tratar de um crime motivado pela cor da pele - "As pessoas são vítimas justamente por causa da cor da pele e isso é escondido, apagado, não fica registado na memória coletiva".

A questão é muito interessante: deveriam os jornais "puxar", no título, pela nacionalidade da família ou pela sua "identificação racial", já que teria sido esta a determinar o ataque? Não faço ideia de qual foi a intenção de cada um dos que fizeram aqueles títulos, mas creio que se fosse eu optaria também pela designação da "família sueca". Não apenas por ser mais rigorosa, mas pela desconstrução do estereótipo; por, desejavelmente, pôr as pessoas a pensar sobre a sua "visualização" automática das vítimas e a sua incapacidade de as ver de uma cor "não europeia", digamos. Pelo efeito surpresa: "Caramba, claro, também pode haver suecos de outras cores".

Porém admito outras leituras. E que na escolha tenham ponderado também questões de ética, relacionadas com as situações nas quais as características étnicas de objetos de notícia podem ou não ser referidas, além do facto de provavelmente nenhum dos jornalistas em causa saber quais eram essas características - a não ser que seriam de molde a suscitar "ódio racial" e fúria homicida a alguém identificado como candidato eleito do Chega a uma junta de freguesia alentejana.

Há 25 anos, numa reportagem que envolvia imputações de racismo, decidi dizer a cor da pele de cada interveniente, porque achei que devia explicitá-la; que a forma mais eficaz de naquele contexto dar a ver o problema era essa, até pelo choque que isso causa num país que está sempre a negar o seu racismo e a jurar que "não vê cores".

É uma decisão arriscada: as características que causam discriminação devem ou não ser designadas e ressaltadas? Ao sublinhar essa identidade não estamos a reforçar a "separação"? Não estamos a validar a ideia de que existem "raças" e a facilitar o trabalho aos racistas?

Esta questão tem sido, como se sabe, muito debatida a propósito dos Censos de 2021 e do inquérito-piloto às Condições, Origens e Trajetórias da População que esta segunda-feira o INE iniciou em vários concelhos da área metropolitana de Lisboa, perguntando qual a identificação de cada um em termos "étnico-raciais".

Há quem defenda que o Estado não deve levar a cabo esta inquirição (que é, por imperativos constitucionais, opcional); e há quem há muito, nos movimentos antirracistas mas também na ONU, a reivindique, para que finalmente se possa aferir da discriminação da população não branca e torná-las, a essa discriminação e a essa população, visíveis, mensuráveis.

A ideia de que os não brancos são automaticamente estrangeiros (mas não, constata-se, suecos) - tão clara na pergunta automática que em Portugal tanto se faz a alguém "não branco", "de onde és?" - poderá assim começar a ser erodida com base em números; poderemos saber com um pouco de rigor dos trajetos estudantis e laborais da população não branca. Há riscos, claro: forças e movimentos políticos racistas podem aproveitar esses dados para a sua retórica de ódio e exclusão.

Tudo medido, e consciente desses riscos, defendo este inquérito - quero poder saber o que se passa para saber como melhor agir. Não será com os seus resultados nem com as políticas que neles se possam fundar que deixaremos de "ver" suecos como exclusivamente brancos louros e ricos, mas pode ser, espero, que a nossa ideia do que é um português mude - e que aprendamos a saber, sem sequer termos de pensar nisso, que não é igual a branco. Porque, afinal, ser antirracista não é não ver cores; é ver, como na canção, em todos os rostos - todas as cores - igualdade.

Jornalista

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