Não vale tudo. Bom senso precisa-se

Governar, seja o que for, não é tarefa fácil. Basta pensar na gestão das nossas casas, que em tempo de pandemia se tornou ainda mais complexa, já que a incerteza e disrupção passaram a fazer parte do quotidiano. O certo é que, à exceção dos domicílios, só governa quem quer - ou quem vence. Por sufrágio ou não, haverá sempre uma apreciação do modelo de governança.

Se sairmos da esfera "caseira" e entrarmos na política, a avaliação dos políticos e das políticas é feita através do voto. Esse é sem dúvida um dos principais desígnios das eleições. E longe de ser um processo à toa. Cada vez mais os eleitores pretendem fazer um maior escrutínio da atividade política. Enquanto comunidade, o ato de responsabilizar quem governa é crucial.

O que nos leva à organização clássica do Estado, cuja base assumiremos como boa. Aí, os poderes estão divididos nos três ramos: Legislativo, Executivo e Judicial. Há ainda outras divisões na organização do Estado, também elas relevantes: Central, Regional e Local, nesta última onde estão as Câmaras e as Juntas, onde cada qual tem o seu conjunto - cada vez mais alargado - de competências.

Ora, nesta altura já andei pelas nossas casas, mencionei a importância de avaliar a gestão e relembrei a organização do Estado. Esta passeata abranda agora para relembrar um comportamento que foi escrutinado a nível global. Trata-se de um Presidente que num comício disse aos seus apoiantes que seria necessário revelar quem validava os votos no ato eleitoral. Alegou ainda que não aceitava o "roubo" das eleições, um furto quimérico que nunca aconteceu. Essa incitação, irresponsável, populista e demagógica, para alguns inclusivamente ilegal, levou à invasão do Capitólio. Porquê? Faltou bom senso. Não vale tudo.

Porém, já aceitámos por cá que um comentador político, ex-político de profissão ou ex-jornalista, insinue em sinal aberto de que a culpa dos números da pandemia seja da exclusiva responsabilidade do Primeiro-Ministro. É este tipo de inverdades que olvidam factos muito relevantes para perceber a história recente, como por exemplo a conivência de todos os Partidos com as medidas de alívio tomadas no Natal.

Mesmo quando se trata de uma avaliação tendenciosa, aos olhos de alguém que nunca escondeu a "sua alergia" ao Governo de António Costa e do PS, recai sobre todos, especialmente nesta fase, um dever de reflexão e sensatez.

E porque referi "dever", mais vincada ainda é a responsabilidade de quem exerce funções públicas. Sobre os titulares de cargos públicos incide uma conduta especial de cuidado. Mas mais: quando o detentor de um cargo público se dirige aos seus "constituintes" (ou eleitores), in casu munícipes, há uma necessidade de retidão acrescida.

Apesar de estarmos em ano de eleições, não se pode ceder ao facilitismo - para não dizer populismo. Ingerências maledicentes, ou que apenas visam promover os interesses do emissor, não devem ser aceites de ânimo leve. Especialmente quando a intromissão se afigura quase como um incitamento à população, ainda que feita em tom de desabafo (já vimos como esses desabafos, conscientes ou inconscientes, podem acabar).

Discordar é salutar e democrático, mas é também verdade que quando o assunto se relaciona com o combate à pandemia não há consenso absoluto. Por conseguinte, o bom senso pode ajudar e muito. Mais importante do que "aparecer" por se estar contra esta ou aquela medida, é essencial atuar com unidade para conseguirmos ultrapassar este momento tão difícil para os portugueses, em particular, e para a humanidade, em geral.

Estou certo de que a maioria dos responsáveis que se manifestaram levianamente há dias não pararam para refletir sobre os efeitos colaterais que podiam ter despoletado. Tenho-os como pessoas de bem, como políticos responsáveis e grandes democratas. Conheço alguns pessoalmente e por isso sei que antes do político aparece a sua individualidade. E por esse prisma, tendo em conta a sua condição humana, não são imunes ao erro.

Portugal tem grandes autarcas. Verdadeiros democratas. Essa é uma das razões pelas quais o poder local tem sido, e continuará a ser, essencial ao desenvolvimento e progresso do nosso país.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de bom senso. Os fins nem sempre justificam os meios. O entendimento é deveras relevante no período em que nos encontramos. E quem nos lidera, aqueles que escolhemos para essa função, das Freguesias às Câmaras, do Parlamento ao Governo, passando pelas Regiões Autónomas e Presidência da República, tem a responsabilidade maior de nos comandar não pelo exemplo do seu poder, mas pelo poder do seu exemplo.

Advogado

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