O mundo visto de Munique

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Quando morreu, em 2013, os obituários publicados nos jornais sobre Ewald-Heinrich von Kleist, descreveram-no como o último dos oficiais alemães que estiveram envolvidos na conspiração para matar Adolf Hitler, na fase final da Segunda Guerra Mundial. O líder do complô, o conde Claus von Stauffenberg, recrutou-o uns meses antes de julho de 1944, data do fracassado atentado contra o Führer.

Tal como muitos dos oficiais que se rebelaram contra Hitler, Von Kleist pertencia a uma família prussiana influente, com tradição militar. O seu pai, também ativo contra o nazismo, acabou por ser executado perto do fim da guerra. Mas ele conseguiu escapar (por falta de provas?) e foi enviado para a frente de combate, contra os soviéticos, sobrevivendo. Depois da rendição nazi, numa nova Alemanha reconstruída, disse acreditar que terá escapado à pena de morte porque ninguém o denunciou à Gestapo.

Ora, este alemão corajoso, que viveu a tragédia que é a guerra, criou em 1963 aquilo que hoje conhecemos como Conferência de Segurança de Munique. A ideia seria discutir como manter a paz, e a segurança do Ocidente, naquela época de Guerra Fria.

Passadas seis décadas, a Conferência, realizada no Hotel Bayerischer Hof, continua um momento importante do debate internacional e, ao longo dos anos, abriu-se à participação global. Vladimir Putin chegou a discursar em Munique, com uma audiência de altos responsáveis europeus e americanos a ouvir o presidente russo.

A sessão que se inicia esta semana, em vésperas do 4.º aniversário da invasão da Rússia pela Ucrânia, ocorre, porém, num mundo de novo fracionado, mas muito mais complexo do que durante a Guerra Fria. Mas a comprovar que não voltou a ser uma sessão da NATO e aliados, Wang Yi, ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, será um dos conferencistas.

Na memória de muitos participantes estarão ainda as críticas aos europeus, na Conferência de 2025, pelo vice-presidente americano, JD Vance. Críticas diversas, mas de grande impacto, sobretudo a pressão para maiores gastos militares dos parceiros europeus da NATO, tal como continuou a fazer o presidente Donald Trump, e foi assumido ainda em 2025 na Cimeira de Haia.

Mas se as tensões entre os Estados Unidos e os países europeus, por assuntos como a Gronelândia, e o interesse geopolítico para os americanos da ilha gigantesca que pertence à Dinamarca, são importantes, e geram algumas dúvidas sobre a coesão da NATO, a verdade é que o grande tema relacionado com a segurança internacional continua a ser a guerra na Ucrânia.

As tentativas de Trump para convencer Putin e Volodymyr Zelensky a chegar a um acordo de paz chocam com a continuação dos ataques russos e a recusa do presidente ucraniano de ceder às exigências territoriais do presidente russo. E, de facto, vislumbra-se pouco terreno para um entendimento, com a Ucrânia a querer garantias de segurança por parte dos americanos e dos europeus antes de admitir qualquer negociação com a Rússia.

Outro ponto de tensão importante continua a ser a questão de Taiwan. A China ameaça com a reunificação pela força, e os compromissos de defesa dos Estados Unidos com a ilha chinesa desde 1949 rebelde, e hoje democrática, fazem temer uma guerra no Pacífico que, segundo todas as análises, seria ainda mais grave, e desestabilizadora para o mundo, do que a guerra no Leste europeu que dura desde 2022. Daí o significado da presença do chefe da Diplomacia chinesa em Munique, sinal de que há outras vias para lidar com a questão taiwanesa sem ser a militar, desde que o independentismo não seja incentivado.

Uma delegação do Kuomintang, partido nacionalista que perdeu a guerra civil chinesa contra os comunistas em 1949 e hoje é a oposição taiwanesa, visitou a China há dias, defendendo a necessidade de diálogo e irritando as autoridades de Taipé, que denunciam as ameaças chinesas e as constantes manobras militares de intimidação em redor da ilha. Toda esta tensão no Estreito de Taiwan agita a Ásia Oriental, ao ponto de a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, ter feito declarações sobre eventual envolvimento do país em caso de conflito e continuar a reforçar os gastos em Defesa.

Do Médio Oriente aos conflitos esquecidos em África, mas não por isso menos letais, passando pelas principais zonas de tensão entre as grandes potências, o mundo está, pois, muito perigoso. Paulo Rangel tem presença prevista em Munique e ainda bem que o ministro dos Negócios Estrangeiros ouvirá (e falará), pois muito do que vai acontecer na cidade do sul da Alemanha trará inevitavelmente alertas para Portugal, basta pensar no esforço de investimento militar já assumido para a próxima década.

Von Kleist deixou vários legados: o do exemplo de coragem é um, e sempre muito destacado; ter criado esta Conferência de Segurança é também de aplaudir.

Diário de Notícias
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