A habitação, ou mais propriamente falta dela em condições acessíveis, é um dos problemas, sociais mais graves que a Europa tem para resolver (o qual não é, aliás, exclusivo deste continente). As causas e consequências comuns deste problema levaram a UE a empenhar-se na sua solução, agora com um Comissário dedicado, pese embora não se tratar de uma política onde as competências europeias sejam significativas..No entanto, esta semana o The Economist deixou-nos com a má noticia de que os preços das casas podem continuar a subir nos próximos anos, citando o caso português e apontando os principais fatores que para isso contribuem..Um deles é, naturalmente, o aumento da procura de casa, devida ao aumento da população no mundo e aos fluxos migratórios decorrentes da necessidade de mão de obra dos países mais desenvolvidos. .Outro fator que justifica esta subida tem a ver com a concentração urbana. A larga maioria do emprego está situado nas grandes cidades, as capitais, uma tendência que tem vindo a agravar-se nos últimos anos. Em países como o Japão, a Coreia do Sul e a Turquia o emprego cresceu mais nas capitais do que no resto do país todo. Não tenho números sobre Lisboa, mas é de crer que possam ser semelhantes. Acresce a esse fator a concentração dos equipamentos culturais e de lazer mais atrativos também nas capitais, como é obvio em Portugal. .Tudo junto faz aumentar a pressão sobre a procura de casas nessas cidades e desenvolver polos residenciais periféricos, como a anunciada “Lisboa 2”, junto ao novo aeroporto, que infernizarão a possibilidade de ser oferecida uma rede de transportes conveniente. Em quase todas as capitais os tempos médios das deslocações pendulares têm, aliás, vindo a degradar-se (mesmo onde há excelentes redes de metro, como em Londres), o que leva as pessoas a procurarem não residir muito longe do seu local de trabalho..Mesmo que essa pressão da procura possa ser atenuada com a injeção de casas a preços acessíveis (subsidiados) e a intervenção dos municípios neste mercado, essa oferta é muito pouco elástica, sobretudo nas capitais..Uma forma mais estruturante de resolver este problema e outros que têm a ver com a sustentabilidade é a descentralização do emprego e de equipamentos hoje concentrados nas capitais, distribuindo-os melhor pelo território. De que vale haver incentivos fiscais para as pessoas saírem das capitais, se não encontrarem emprego nem condições de vida atrativas em outro lado?.Isso exigiria outras políticas mais ousadas de reconfiguração territorial, que estão longe de estar a acontecer, pelo menos em Portugal. Além de uma aposta decidida na descentralização territorial e no desenvolvimento regional, exigiria que o Estado desse o exemplo, tirando da capital alguns dos seus serviços e incentivando outros setores a fazerem o mesmo, mas todos se recordam da espalhafatosa contestação da mudança do Tribunal Constitucional para Coimbra, corajosamente levada por Rui Rio ao Parlamento, onde morreu. .Seja como for, sem inversão desta tendência vai ser difícil resolver o problema da subida do custo da habitação que, além de tudo o resto, é uma vítima da centralização.