França à espera de um novo presidente 'Júpiter'?

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Ainda o centrista François Bayrou mal tinha acabado de convocar uma moção de confiança ao seu governo, para 8 de setembro, e já começavam as especulações sobre os cenários, caso, como parece inevitável, o resultado da votação leve à queda do executivo minoritário. E num regime presidencialista como o francês, esses cenários passam invariavelmente por Emmanuel Macron. O presidente pode simplesmente nomear um novo primeiro-ministro (se encontrar um nome consensual), pode convocar novas eleições legislativas (como é desejo da oposição da extrema-direita à extrema-esquerda) ou pode ser mais radical e demitir-se. Até agora, Macron negou qualquer intenção de deixar o cargo, mesmo com a França mergulhada na instabilidade. Agora, com o governo em risco devido ao orçamento de austeridade que apresentou para 2026 e uma jornada de protesto a 10 de setembro, o presidente irá voltar a causar surpresa?

Podemos pensar que, por um lado, Macron, mesmo impedido de se recandidatar por estar no segundo mandato, poderia querer aproveitar o facto de Marine Le Pen, a líder de facto do Reagrupamento Nacional (RN, antiga Frente Nacional, de extrema-direita) estar proibida de ser candidata, dando assim mais hipóteses aos centristas. Le Pen era favorita das sondagens até, em março, um tribunal a ter condenado a quatro anos de prisão por desvio de fundos públicos. Foi também proibida de exercer cargos públicos durante cinco anos. Uma decisão da qual recorreu para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, mas a decisão pode nem sair antes de 2027.

Para Macron pode parecer mais fácil um protegido seu bater Jordan Bardella, o atual líder do RN que, aos 29 anos, não tem o peso de uma Le Pen - mesmo se as sondagens o dão largamente à frente na primeira volta e com grandes hipóteses de vencer a segunda, dependendo de quem for o adversário. Ora aí é que reside o busílis da questão: sem Macron, quem avança dentro do campo presidencial? Neste momento, o candidato mais forte é Édouard Philippe, o ex-primeiro-ministro e atual líder do Horizons. Uma figura com algum reconhecimento e fama de construtor de pontes. Outro nome em cima da mesa no campo centrista é o de Gabriel Attal, também antigo chefe do governo, hoje à frente do partido de Macron, o Renaissance, que aos 35 anos não esconde a ambição de se tornar o mais jovem presidente da V República.

Aconteçam agora ou só em 2027, as presidenciais serão um ponto de viragem para França. Le Pen será candidata ou não? Quem vai avançar depois de Macron? O “insubmisso” Jean-Luc Mélenchon tentará pela quarta vez chegar ao Eliseu e conseguirá unir as esquerdas?

Seja quem for o eleito, terá pela frente uma França em crise social e financeira. Depois do presidente “bling bling” Nicolas Sarkozy, do presidente “normal” François Hollande, o presidente “Júpiter” Emmanuel Macron espera deixar em legado mais do que um país à beira da falência e uma sucessão de (até agora) seis primeiros-ministros. É que a instabilidade política começa a fazer esta V República, fundada por De Gaulle, parecer-se demasiado com os tempos finais da IV.

Editora-executiva do Diário de Notícias

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