Eu não sou a vossa P….

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Há dois dezembros, Gilberto Gil, ícone dos maiores na discografia da minha infância - definitivamente gravado em mim naquele “entra em beco, sai em beco” do refrão de Madalena -, partilhava uma memória - mais uma - de como as palavras podem ser resistência.

Aconteceu-lhe em 1974, e, em 2021, ganhou expressão pública a partir de uma publicação nas redes sociais que me permitiu satisfazer uma das interrogações da minha adolescência: “Quem é que, no seu perfeito juízo, dá o nome de Preta a uma filha?”

Para quem, como eu, cresceu a ouvir a palavra como um insulto, e que cedo teve de se confrontar com os preconceitos raciais que lhe estão associados, “preta” significava o oposto do que se poderia desejar a alguém que se ama.

Justamente por isso, confesso que me passou pela cabeça a ideia mirabolante de que outras pessoas - que não os pais da criança - tivessem orquestrado um plano para infernizar a vida de toda a família.

O post  de Gilberto Gil fez-me recordar a minha verve adolescente de inspiração novelesca, mas foi, sobretudo, eficaz ao me relembrar do poder que vive na possibilidade de escrevermos as nossas histórias.

Enquanto o mundo lá fora poderia continuar a arremessar a palavra “preta” como insulto, na família do ex-ministro da Cultura do Brasil ela ganhou expressão de amor.

“Na minha casa, ‘Preta’ se tornou nome próprio”, escreveu o músico, recuando ao ano de registo da sua terceira filha. “Eu falei para a moça registrar Preta. Ela perguntou: ‘Preta?’.” Diante da perplexidade, o compositor persistiu: “Sim.” Mais do que simplesmente insistir na intenção, Gilberto fez questão de evidenciar o recorte racial da escolha. “Se for Branca, Bianca, Clara, pode? Acho que a senhora já registrou muitas.”

Escolho esta história para me estrear nestas páginas, porque nela encontro dois aspetos definidores da pessoa em que me tornei. Por um lado, assumi a minha voz humana a partir da minha própria escrita e da leitura de outras vozes negras, processo ancorado em palavras de unidade e luta.
Por outro lado, sempre procurei - ainda que inconscientemente - libertar-me da palavra “preta”, porque reconheço nela uma das expressões de coisificação da minha vida, de desumanização da minha história.

Contá-la implica necessariamente (mas não exclusivamente) falar sobre racismo, porque foi por oposição às construções enviesadas sobre a minha cor de pele que me vi forçada a crescer.
Hoje apregoa-se o valor e valores da interculturalidade - e bem -, mas antes, como agora, as fronteiras entre “nós” e os “outros” continuam a ser profundamente definidas por uma ideia de humanidade, fundada na raça. Para memória mais recente, recorde-se o que aconteceu há cerca de dois anos na Ucrânia.

Esta também é a minha história.

No passado como no presente, as minhas raízes em Moçambique, China e Portugal - indo até onde as memórias familiares me permitem ir -, valem zero diante do que salta à vista: a minha negritude.

Numa sociedade em que ser “preto” é sinónimo de cheirar mal; em que a Lei “pinta o suspeito de negro”; em que abundam os casos de discriminação racial; em que a História negra é desrespeitada como quem faz uma brincadeira de Carnaval … que possibilidade de futuro vê uma criança negra, que não seja distanciar-se da sua cor? Que orgulho pode haver num retrato de inferiorização que é ensinado na escola?

Eu tive a sorte de ter um teto, pai e mãe letrados, comida, livros, roupa, calçado e a presença de referências negras extradesportivas como Samora Machel ou Nelson Mandela.

Por isso, nunca rejeitei a minha pertença, e sempre tive presente que a História Negra é uma História de excelência e de resistência, e não de subjugação.

Talvez por isso tenha começado, ainda que inconscientemente, a escrever a minha história sob o peso desse legado. Na escola, como na vida, nunca senti que pudesse ser outra coisa que não excelente, nem que houvesse outra forma de vida que não a sobrevivência a todos os ataques.

Para não ser mais uma “preta”, sem direito à expressão da sua identidade, tinha de ser reconhecida como pessoa, com direito a nome próprio e apelido.

Durante muito tempo acreditei que isso dependia apenas de mim. Depois percebi que por melhor que fosse o meu desempenho, ele nunca me retiraria, por si só, do lugar de invisibilização e silenciamento historicamente reservado a pessoas negras nesta sociedade. 

É contra ele que escrevo.


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