Depois dos pandas e do pingue-pongue, a diplomacia das baquetas

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Quando, no ano passado, o presidente sul-coreano lhe confessou que tinha o sonho de tocar bateria, à margem da Cimeira da APEC que decorreu na Coreia do Sul, a primeira-ministra japonesa soube logo qual seria a surpresa perfeita quando este a visitasse. Foi portanto com duas baterias e um par de baquetas para cada um que Sanae Takaichi recebeu Lee Jae Myung na terça-feira, na sua cidade natal de Nara, no centro do Japão. E juntos, a fã de heavy metal que toca bateria em casa para aliviar o stress, e o aspirante a baterista deram música a quem os acompanhava, marcando a batida de dois êxitos do KPop: Dynamite, dos BTS, e Golden, do filme da Netflix KPop Demon Hunters, acabada de ser premiada com um Globo de Ouro.

A visita de Lee marca uma aproximação entre dois países que partilham uma história conturbada, marcada pela ocupação da Coreia pelo Japão entre 1910 e o fim da II Guerra Mundial, que deixou feridas ainda hoje abertas, seja em torno das indemnizações aos indivíduos sujeitos a trabalho forçado ou das “mulheres de conforto”, as dezenas de milhares de coreanas obrigadas a prostituírem-se para os militares japoneses. E houve ainda tempo para uma troca de presentes: Takaichi deu a Lee um par de baquetas gravadas com o seu nome. Lee retribuiu com um par de baquetas decoradas com laca e uma bateria da marca coreana Markers.

Este momento de soft power - uma troca do que de melhor cada país tem para oferecer na qual não faltou um Samsung Galaxy Watch Ultra, oferecido por Lee ao marido de Takaichi - foi apelidado pela CNN de “diplomacia das baquetas”. Uma referência à famosa diplomacia do panda, a estratégia da China de usar pandas gigantes como ferramenta de política externa, oferecendo-os (ou emprestando-os, a partir de 1984) a outros países como um gesto de amizade e boa vontade. A técnica terá tido o seu ponto alto em 1972, quando o primeiro-ministro chinês Zhou Enlai ofereceu dois pandas gigantes aos EUA durante a visita histórica do presidente Richard Nixon a Pequim, que marcou a aproximação da América à China comunista. Terá sido o comentário da primeira-dama Pat Nixon sobre a “fofura” dos pandas que vira no zoo de Pequim a dar a ideia a Zhou e, meses depois, Hsing-Hsing e Ling-Ling eram recebidos em festa na capital americana.

Desde então tem-se falado muito de “diplomacia de...”, muitas vezes associando a expressão a um desporto, como o pingue-ponge (também entre EUA e China nos anos 1970), do básquete (com a antiga estrela da NBA Dennis Rodman a tornar-se amigo do líder norte-coreano Kim Jong-un devido à paixão partilhada pela modalidade) ou do hóquei no gelo (tema numa chamada entre Trump e Putin no ano passado). Mas num mundo cada vez mais perigoso, não era mau associá-la mais vezes à música e ver os líderes mundiais embarcar não só na diplomacia da baqueta, mas quem sabe na do arco ou na da palheta.

Editora-executiva do Diário de Notícias

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