Para mim, curioso do mundo e dos outros- inquieto por natureza-, nunca percebi a razão para tantas reticências, tantos entraves, tantos obstáculos à participação igualitária das mulheres no mercado de trabalho e, como é óbvio, no mercado das pessoas que decidem, das que lideram empresas, bancos e governos. Não se trata de colocar a premissa na justiça. Seria justo se assim fosse, mas está longe de ser apenas isso, tem a ver com a oportunidade de sermos mais produtivos, mais competitivos, mais completos.As mulheres e os homens são diferentes e complementares. Há uma dimensão biológica que foi sendo desvalorizada pelo excesso abusivo de uma corrente que autodeterminou que quase tudo é fruto de uma herança cultural conservadora que tem como objetivo perpetuar a desigualdade. Foi, lamento dizer, um presente envenenado.Vamos lá a ver. As mulheres podem ser mães. Os homens, não. As mulheres têm biologicamente mais propensão para os detalhes do que para a observação da floresta, as mulheres foram capazes de desenvolver características intelectuais capazes de equilibrar a maior força física dos homens, as mulheres têm uma estrutura hormonal diferente e vários estudos publicados nas melhores revistas falam da força da intuição feminina como resultado de diferenças cognitivas e neurológicas diferentes.Não faz qualquer sentido que as mulheres não estejam equiparadas aos homens. Que não sejam respeitadas cotas - criando-se leis mais punitivas para quem não as cumpra -, que no parlamento não haja paridade, que nos conselhos de administração das empresas, nas instituições financeiras, reguladoras, ou no governo tal não aconteça, sendo ainda mais revoltante a disparidade salarial entre homens e mulheres.Quanto mais livres forem as mulheres, mais felizes serão os homens.E quanto mais poder tiverem as mulheres, mais felizes e competitivas serão as empresas e mais competentes e plurais serão os países. O pensamento feminino é decisivo para uma boa governança, para que os resultados sejam melhores em função de ideias e de uma execução equilibrada com mais perspetivas e não apenas com uma única.O poder feminino significa uma maior diversidade de pensamento, uma inteligência genética partilhada que torna a decisão mais diferenciada e plural.Todos e todas concorremos para o mesmo.Com o acrescento da maternidade que deve ser assegurada e estimulada pelo Estado - terá de partir daqui a absoluta defesa dos direitos laborais das mulheres que engravidam. A minha perspetiva é sermos melhores. Termos melhores resultados. Melhores ideias, equilibrar o racional e o intuitivo, o pragmatismo e a empatia, até a retórica com o modo como se organizam as equipas e se defende uma verdadeira sustentabilidade.Tenho uma mãe extraordinária. Não tive a graça de ter filhas, nasceram-me dois rapazes de uma mãe fantástica, grato por isso. Tenho pena de não saber o que é ser pai de uma menina.Somos todos diferentes e isso é bom.As mulheres não têm de ser protegidas, mas alimentadas na sua legítima ambição que é a mesma de quem produz riqueza. A repugnante violência do género tem de ser combatida noutro paradigma, uma verdadeira igualdade reduz a violência apenas à desigual dimensão física que deve ser resolvida e reforçada pela justiça através de modelos penais sancionatórios mais firmes.Escrevi a semana passada sobre o Cardeal Tolentino, o caminhante. Sobre a educação para gentileza. Sobre aquela frase extraordinária em que nos diz que a melhor forma de definir o amor é quando duas pessoas se acrescentam mesmo em silêncio. Gentileza e inteligência. As mulheres precisam de ser levadas a sério. Cada vez se fala mais nisto, mas dá-me ideia de que existe um retrocesso, um aumento de conservadorismo que não é de direita ou de esquerda, é apenas pouco inteligente.Nestas eleições presidenciais há apenas uma candidata. A maioria dos deputados são homens, de presidentes de câmara, de junta, de governantes, de administradores, de diretores gerais. E até das instituições culturais - quantas presidentes existem em fundações, teatros, associações culturais?É uma vergonha para qualquer homem que tenha padrões mínimos civilizacionais.Os números hoje são melhores, sim. Mas não é o bastante. Continuamos presos a um paradigma estúpido, continuamos a utilizar metade do cérebro quando poderíamos utilizar o cérebro inteiro.É também por isso que aplaudo a escolha de Isabel Guerreiro para ser presidente da comissão executiva do Santander.É uma boa notícia, a primeira mulher a liderar um banco comercial sistémico aqui, tal como sucede internacionalmente com Ana Botín.Apesar de sermos os dois “guerreiros” nunca nos cruzámos, mas foi uma notícia que me encheu de satisfação. Sobretudo por ela se ter especializado no futuro - nas revoluções tecnológica e digital. Muitos parabéns, muito boa-sorte.Enquanto presidente da Caixa Agrícola de Torres Vedras, estamos a meio caminho. Comprometo-me a continuar a dar o exemplo. No primeiro mandato passámos para mais de quarenta por cento de mulheres no número absoluto de colaboradores. Temos uma maioria de mulheres no conselho fiscal e na direção de topo e uma administradora executiva num conselho com quatro elementos executivos, com a mesma especialização da Isabel.Um dia, quando eu próprio abandonar a presidência, seria um sinal muito forte que a escolha dos nossos associados passasse por uma mulher.Um sinal forte e o exercício de uma convicção de que o caminho é por aqui. Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedrasmanuel.guerreiro@ccamtv.pt