A notícia podia ser o facto de, pela primeira vez, um mayor de Nova Iorque prestar juramento sobre o Alcorão ou por estar a fazê-lo numa estação de metro desafetada sob o edifício da Câmara Municipal, mas houve outro detalhe que marcou a tomada de posse de Zohran Mamdani: as botas da sua mulher, Rama Diwaji. A artista surgiu na posse do marido envergando um casaco Balenciaga e... umas botas da marca Miista no valor de 630 dólares. De nada adiantou explicar que toda a indumentária era alugada, logo se indignaram os que consideram que a mulher de um político que se diz socialista (quase sinónimo de comunista nos EUA) não pode usar uma botas desse valor.Mas a ditadura da moda na política não se ficou neste início de ano pelas botas de Rama Diwaji, por sinal de uma marca sediada em Londres, mas com fábrica em Espanha e que trabalha com artesãos portugueses. Também Delcy Rodríguez, a vice-presidente de Nicolás Maduro que tomou posse como presidente interina, depois de o líder venezuelano ter sido capturado pelos EUA numa operação militar que envolveu bombardeamentos em Caracas, foi alvo de críticas pela escolha do vestido que usou. Verde e da marca Chiara Boni, o modelo foi notícia pelo seu preço. Não os 14 mil dólares que chegaram a circular nas redes sociais, mas sim os 517 euros com que surge à venda no site da Farfetch. Mais significativo talvez do que o valor do vestido é a marca escolhida por Delcy Rodríguez, a também ministra do (tão cobiçado) Petróleo que de fiel aliada de Maduro passou a colaboradora de Trump, ser uma das favoritas de Lara Trump, nora do presidente americano, e de outras trumpistas, além das apresentadoras da FOX News.Para não dizerem que os jornalistas só falam das roupas das mulheres na política, num sinal do sexismo que estas ainda enfrentam, houve também um protagonista homem dos acontecimentos destes últimos dias que não escapou ao escrutínio dos polícias da moda: o próprio Nicolás Maduro. Mais do que os ténis laranja com que desceu do helicóptero que o levou ao tribunal de Nova Iorque onde se declarou inocente das acusações de narcoterrorismo, mais do que o gorro com que foi fotografado à entrada para a Prisão de Manhattan onde está detido, foi o fato de treino cinzento da Nike com que surge na primeira fotografia divulgada pela Casa Branca após a sua captura que chamou a atenção. Talvez por contrastar com os fatos de treino coloridos - com araras ou com as cores da bandeira da Venezuela - a que nos habituou ou por a marca em causa ser um símbolo do capitalismo envergado pelo líder venezuelano caído, a verdade é que o modelo esgotou no site da marca. Três exemplos de que mesmo quando a ordem mundial a que nos habituámos estremece, ainda há espaço nas notícias para algo tão fútil como uma análise às toilettes dos seus protagonistas. Mas será tão fútil assim?Editora-executiva do Diário de Notícias