Será que os portugueses valorizam a democracia? Os números sugerem que não. Mais de 49% dos eleitores optaram por não votar nas eleições do passado domingo. A abstenção voltou a ser o maior partido do país e isso deveria inquietar-nos muito mais do que inquieta. Não se trata apenas de desinteresse ou cansaço, trata-se de um afastamento perigoso entre os cidadãos e o sistema democrático, que vai sendo normalizado como se fosse inevitável.Também a chamada direita democrática parece manter uma relação instrumental com a democracia, valorizando-a apenas na medida da sua utilidade. A recusa em apoiar um candidato que passa à segunda volta e que representa, com todas as suas fragilidades, os valores fundamentais do regime democrático é sintomática. O silêncio ou a ambiguidade não são neutros. Num momento como este, são escolhas políticas com consequências.André Ventura fez ontem do “papão socialista” uma narrativa repetida até à exaustão, substituindo o debate político por slogans e medos primários. Em contraste, a candidatura de António José Seguro apresentou uma sala cheia, com bandeiras de Portugal e sem símbolos partidários, num esforço claro de falar para lá do partido e para um espaço comum. Pode discutir-se a eficácia desta estratégia, mas não a intenção de afirmar um campo democrático alargado.Confesso-me uma otimista enlutada. Nunca imaginei viver dias como estes. Nunca imaginei ver ideias abertamente iliberais serem apresentadas como propostas de futuro, nem perceber que uma parte significativa da juventude as acolhe com entusiasmo. Não tenho uma resposta simples para isto, e desconfio de quem diz tê-la. Sei apenas que falhámos colectivamente na transmissão de valores básicos, na educação cívica e na construção de um horizonte comum que não se limite à indignação momentânea.Sou democrata. Aceito que existam ideias diferentes das minhas, respeito outras formas de entender o mundo e a sociedade. Mas há mínimos olímpicos. Há limites que não são negociáveis: a dignidade humana, os direitos fundamentais, o respeito pela Constituição e pelo Estado de Direito. Sem esses mínimos, deixamos de discutir política e passamos a discutir outra coisa.Que mais de 49% dos eleitores tenha decidido não votar é, para mim, a maior tristeza. Porque a democracia não morre apenas com ataques frontais, morre também de indiferença, de cansaço e de silêncio. E também morre quando existem entraves ao voto: muitos eleitores não têm condições de mobilidade para se deslocar à sessão de voto (sim, esta é uma realidade que convinha ser bem analisada) ou quando estão no estrangeiro e não é fácil submeter o voto. E isso devia preocupar-nos a todos, muito para além das próximas eleições. E confesso o meu cansaço que resulta de estar atenta. Jornalista e escritoraEscreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico