A regionalização administrativa é um dos temas mais estruturantes da organização do Estado. E é também uma resposta necessária a um problema que conhecemos bem: um país excessivamente centralizado, onde a decisão está distante das pessoas e dos territórios, inibindo o potencial de desenvolvimento das áreas situadas fora da capital.A ideia de base é simples: aproximar o poder de decisão de quem vive no território. Trata-se de consagrar o princípio da subsidiariedade. Decidir mais perto das pessoas permite conhecer melhor os problemas e construir políticas públicas mais ajustadas à realidade de cada região. Permite, no fundo, tratar de forma diferente o que é territorialmente diferente.Hoje, esse nível intermédio não existe com legitimidade democrática. As Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional têm competências relevantes, mas são órgãos nomeados pelo Governo. A regionalização propõe algo diferente: regiões com órgãos eleitos, com responsabilidade política, maior escrutínio público e mais eficácia na gestão dos recursos.Este modelo permite também clarificar funções. O Governo Central concentra-se nas grandes áreas estratégicas, como a defesa, a política externa ou as finanças. E as regiões assumem a gestão de matérias que exigem escala territorial, mas proximidade à realidade local.Na prática, há muitas áreas onde esta escala faz falta, tendo como base as áreas geográficas das atuais CCDR. Transportes intermunicipais, gestão da água, do saneamento e de bacias hidrográficas, ordenamento do território ou utilização de fundos europeus são exemplos claros. São demasiado complexos para um único município e demasiado específicos para uma decisão centralizada.A regionalização permite gerar importantes ganhos de escala, planear melhor, evitar duplicações e promover uma visão integrada do território. E permite também ultrapassar uma lógica de competição entre municípios que, muitas vezes, prejudica o interesse coletivo.Mas há um ponto central: as desigualdades territoriais. Portugal continua marcado por fortes assimetrias. Concentrar decisão e investimento na capital não resolve esse problema. Tende a agravá-lo.Dar capacidade de decisão às regiões significa permitir políticas mais ajustadas à realidade económica e social de cada território. Significa criar condições para atrair investimento, fixar população e combater a desertificação. E significa também aplicar melhor os fundos públicos. Significa, sem dúvida, reconhecer que o desenvolvimento do país não pode ser pensado apenas a partir de um centro.A regionalização não é um fim em si mesmo. É um instrumento. Um instrumento para melhorar a qualidade das decisões, ganhar agilidade para competir globalmente por investimento estrangeiro, reforçar a democracia e aproximar o Estado das pessoas. Um instrumento que garante que o acesso a serviços públicos fundamentais, como a saúde ou a cultura, não depende da distância à capital, mas das necessidades reais das populações.A região administrativa torna-se, assim, um motor de desenvolvimento que transcende a burocracia, a lentidão e a distância da decisão central.E é por isso que vale a pena discuti-la. Com seriedade. Com informação. E com sentido de futuro.