Uma mão cheia de (in)diferença

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Em 25 de julho de 1963, poucos meses antes de ser assassinado em Dallas (Texas), John F. Kennedy enviou uma carta ao Comité dos Estados Unidos para a UNICEF, como forma de apoiar a angariação de verbas para o fundo da ONU de apoio às crianças. Nela, escrevia: “As crianças são o recurso mais valioso que há no mundo e a sua maior esperança para o futuro”.

São palavras simples, que facilmente poderíamos ler em vários dos programas eleitorais dos principais partidos em Portugal. O problema não está no conceito em si mesmo: defender a saúde e promover o desporto na infância; salvaguardar a educação e equilibrar as oportunidades de acesso ao ensino médio e superior representam ideias básicas em qualquer país evoluído. O problema está na concretização desses desígnios e, sobretudo, na abrangência. Em termos simples, quem fica tapado pelo cobertor e quem fica com os pés de fora.

Não é novidade para ninguém que lê as notícias nos jornais que o Estado português - seja a nível central, seja na grande maioria das autarquias - dedica pouco orçamento, poucos meios e pouca atenção às crianças com necessidades educativas específicas. É o jargão para crianças com dificuldades de aprendizagem que podem, ou não, estar associadas a problemas cognitivos, autismo ou síndromes de vária ordem. Em suma, são crianças consideradas “diferentes” [por isso existem escolas “inclusivas”] e têm, por isso mesmo, acesso a regras diferentes na sua educação (na avaliação e, por vezes, no conteúdo dos programas), ainda que nem sempre aos meios que, por vezes, seriam necessários para os prosseguir. A manta só estica para outros desígnios, por muito direito que estes alunos tenham a receber apoios adequados.

A perplexidade torna-se maior quando se percebe que o outro lado da escala - os alunos sobredotados - enfrentam o mesmo tipo de problemas. Como escrevemos nesta edição do DN, o apoio a estes alunos com capacidades acrescidas são quase inexistentes, o que leva a presidente da Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS), Helena Serra, a dizer que o apoio “é uma mão cheia de nada”. Como acontece frequentemente em países que elevaram a sua burocracia a uma forma de arte, a ausência de apoios radica na regulamentação que enquadra a vida destas crianças. Tal como as crianças que não conseguem acompanhar o programa normal, estas - que muitas vezes o acham ridiculamente fácil - têm as mesmas regras. “Não há legislação específica, aplica-se a Educação Inclusiva, que pouco ou nada inclui quem tem mais capacidades”, revela a responsável.

Se pensarmos na Educação a duas velocidades (privados vs público); na crescente ausência de professores (sobretudo motivados) na escola pública; na falta de condições de muitas escolas do Estado; na menor exigência dos currículos e quase ausência de exames; nas dificuldades acrescidas das aulas com múltiplas nacionalidades, vemos um padrão e um rumo.

O caminho do Ensino público português arrisca-se a tornar-se, por este meio, uma enorme trituradora de excelência, liminarmente capaz de servir decentemente quem se enquadra no padrão e muito pouco quem fica fora dele.

Coletivamente, parecemos ter já dado como perdida a luta para reter em Portugal os melhores cérebros saídos da geração mais bem preparada de sempre, seja nas universidades, seja depois no mercado de trabalho. Seria um mal maior que abdicássemos de formar estes cérebros em todo o seu potencial.

Lembremo-nos disso quando fizermos a próxima festa - merecida, refira-se - de um ou uma jovem que tira 20 a tudo, faz desporto de competição e está em vários programas internacionais de excelência. Sabemos que ele ou ela não ficam cá, mas é já é bom que sejam de produção nacional.

Lembremo-nos que estes jovens, todos os jovens, os de excelência e os outros, são o nosso recurso mais valioso e a maior esperança para o nosso futuro.

Uma mão cheia de (in)diferença
Sobredotados sem resposta: escolas falham apoio às crianças
Diário de Notícias
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