Uma coligação disfuncional à sombra de Pequim: os BRICS+

Victor Ângelo

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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A Cimeira dos BRICS+, que decorre em Nova Deli a 12 e 13 de setembro, será, no essencial, mais um espetáculo de ilusões geopolíticas. O agrupamento, que começou como uma plataforma financeira de conveniência por iniciativa de Vladimir Putin (com a cimeira inaugural em 2009), foi sendo sucessivamente instrumentalizado. Primeiro, serviu a Rússia, para projetar poder e contornar o seu isolamento; hoje, acresce que é o principal veículo da ambição hegemónica da China no chamado Sul Global.

Moscovo viu originalmente nos BRICS um instrumento mais para forçar a narrativa de um mundo multipolar onde a Rússia manteria o estatuto de superpotência indispensável. Especialmente após o agravamento das tensões no leste europeu, o bloco foi imaginado como um escudo diplomático e uma alternativa financeira capaz de neutralizar as sanções ocidentais. Contudo, a dura realidade económica e o isolamento prolongado ditaram novas regras: a Rússia de hoje, crescentemente dependente da exportação de hidrocarbonetos a preço de saldo para a Ásia e da importação de tecnologia crítica, foi reduzida à condição de parceiro subalterno da colossal máquina económica de Pequim.

É a China que agora assume a batuta e marca o compasso estratégico do agrupamento. Xi Jinping compreendeu que, para desafiar a ordem euro-atlântica consolidada desde 1945, o poderio económico e militar chinês não bastava; era imperativo constituir e liderar uma coligação que servisse de contrapeso ao bloco ocidental.

A expansão de 2024, com a entrada do Egito, Etiópia, Irão e Emirados Árabes Unidos, e a integração da Indonésia em 2025, tiveram como objetivo servir essa ambição. Todavia, existem obstáculos de monta. Desde logo, a vontade de promover o yuan como moeda de reserva, em substituição do dólar norte-americano, é travada por uma contradição estrutural: Pequim recusa abdicar dos seus rígidos controlos de capitais. Enquanto esses controlos se mantiverem, o yuan dificilmente será uma moeda de reserva global credível.

O discurso do bloco sobre a reforma das organizações de Bretton Woods assenta, contudo, em críticas que não devem ser descartadas. O FMI e o Banco Mundial são, há décadas, alvos legítimos de contestação: a revisão das quotas, ratificada apenas em 2016, manteve a China e a Índia sub-representadas face ao seu peso no PIB global. Os Estados Unidos preservam um veto de facto sobre decisões estruturais e a Europa mantém o monopólio da direção do FMI, refletindo uma governação acionista ainda presa à geopolítica de 1944.

Embora esta inércia ocidental ofereça aos BRICS+ uma bandeira genuína e agregadora, há uma diferença abissal entre reformar instituições multilaterais e construir arquiteturas paralelas. A China optou claramente pela segunda via. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e o Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (BAII) não surgiram apenas para corrigir deficiências sistémicas em prol da equidade global. Foram também concebidos para permitir a Pequim financiar projetos estratégicos, mais ou menos ligados ao plano “Uma Faixa e Uma Rota”. São projetos políticos, e não apenas de desenvolvimento. Ao não incorporarem exigências robustas de transparência, de sustentabilidade da dívida e de boa governação, servem frequentemente para criar uma supremacia assente em alicerces frágeis.

O alargamento dos BRICS aumentou exponencialmente o seu peso demográfico, mas diluiu fatalmente a sua coesão. Ao abrigar sob o mesmo teto democracias e autocracias, economias altamente integradas nos mercados globais e regimes asfixiados por sanções, o grupo tornou-se cronicamente disfuncional.

Uma organização que tenta harmonizar os interesses do Irão e dos Emirados Árabes Unidos, ou que alberga a rivalidade fronteiriça, tecnológica e militar entre a Índia e a China, está condenada à paralisia tática. O próprio NDB ilustra esta fragilidade: com um capital subscrito insuficiente face às necessidades colossais do Sul Global, o banco viu-se obrigado a suspender as suas operações na Rússia, perante a ameaça de sanções secundárias americanas.

Neste cenário de equilíbrios precários, Narendra Modi, o anfitrião da cimeira, focar-se-á no pragmatismo imediato, garantindo que a Índia não é arrastada para uma cruzada antiocidental. Modi limitará a agenda ao possível: fomento do comércio entre os membros (que continua a ser ofuscado pelas trocas destes países com o G7); desenvolvimento de sistemas de pagamentos transfronteiriços interoperáveis, exteriores à rede SWIFT; cooperação nas áreas digitais e da Inteligência Artificial; promoção de trocas comerciais bilaterais em moedas locais (yuans, rupias, reais, rublos), mas sempre com a preocupação de evitar que estas substituam a dependência do dólar por uma nova submissão ao yuan.

A Índia e o Brasil traçam aqui a principal linha divisória do bloco: ambos defendem uma reforma dos sistemas multilaterais, mas não apoiam a radicalização dos BRICS+. Para a Índia, o agrupamento é apenas uma das diversas opções da sua autonomia estratégica. Modi joga simultaneamente com Washington, Camberra e Tóquio no quadro do QUAD, ciente de que a verdadeira ameaça à soberania e integridade territorial indiana provém do lado de lá das fronteiras dos Himalaias e da hegemonia naval da vizinha superpotência asiática, e não de Washington.

A imagem final que a Cimeira de Nova Deli tentará projetar será de união e cooperação. Contudo, a verdadeira métrica das prioridades geopolíticas mundiais revelar-se-á na semana seguinte, durante o segmento de alto nível da Assembleia-Geral da ONU em Nova Iorque.

Xi Jinping, que nos BRICS fará a habitual defesa ideológica do multilateralismo inclusivo, não planeia deslocar-se à sede das Nações Unidas para participar na Assembleia-Geral. Em vez disso, tem agendado, no dia 24, a dois passos de Nova Iorque, um encontro bilateral na Casa Branca com Donald Trump. A escolha expõe o fosso entre a retórica chinesa e os seus interesses práticos: as narrativas políticas podem arregimentar seguidores, mas as grandes decisões sobre a ordem mundial continuam a ser negociadas, antes de tudo, na arena bilateral das superpotências.

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