Um Presidente prudente talvez seja mais seguro?

O futuro dirá se Seguro foi o Presidente de que o país precisava neste momento da sua História. E esta não lhe perdoará se deixar um país mais instável e ingovernável do que aquele que encontrou ao chegar a Belém.
Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

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António José Seguro tem sido, a vários níveis, o oposto do seu antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa. Sobretudo no plano da comunicação. Seguro fala menos, limita as suas intervenções públicas a temas que quer realmente endereçar e, como já aqui escrevemos, soube transformar essas características pessoais em vantagens, como se viu na eleição que lhe abriu as portas do Palácio de Belém.

Ainda assim, seis meses volvidos após a sua eleição, há quem questione se a prudência de Seguro se confunde com ausência, como demos conta na edição do DN da passada sexta-feira. Estará o Presidente a ser saudavelmente prudente nas suas intervenções ou, pelo contrário, não só pode como deve ser mais assertivo na forma como exerce o seu magistério de influência?

A questão é muito pertinente e daí ter sido tema de capa do DN, com um excelente trabalho da grande repórter Alexandra Tavares-Teles. Acrescentaria apenas que talvez a resposta deva ser encontrada nos resultados obtidos com esta forma de atuar. A pergunta essencial é esta: o Presidente da República tem conseguido exercer de forma eficaz a sua influência sobre o Governo e os demais órgãos de soberania, com a legitimidade democrática e os poderes que detém no quadro da Constituição? E nas atuais circunstâncias políticas, económicas e sociais, com uma crescente polarização e crises políticas que podem surgir com a rapidez (e a natureza efémera) de um vídeo no Tik Tok?

Importa referir que o Presidente tem feito sucessivos alertas em áreas-chave da governação, como a Saúde, a Educação e as contas públicas. Alertou também para aspetos como a prevenção dos fogos florestais e prometeu acompanhar de perto a aquisição de material militar no âmbito do programa de rearmamento em curso, no valor de 5,8 mil milhões de euros. E, de facto, Seguro fala pouco, mas quando o faz o Governo ouve, como se viu nos últimos dias, após as críticas que lançou à estratégia de prevenção dos fogos florestais (um tema que conhece bem), como pode ler nas páginas 7 e 28.

O Presidente da República, António José Seguro
O Presidente da República, António José SeguroFOTO: ANTÓNIO COTRIM/LUSA

No caso que envolve o ministro da Administração Interna, o Presidente adotou uma postura cautelosa, que lhe valeu críticas de alguns quadrantes que gostariam de o ver a forçar a demissão do ministro. Mas a sua intervenção na passada quinta-feira foi clara: Seguro quer que o caso se resolva rapidamente e que sejam apuradas responsabilidades, para que as instituições sejam preservadas. Para bom entendedor, meia palavra basta. Ou a situação fica esclarecida com a maior brevidade - e de forma que ilibe o ministro -, ou este não tem condições para continuar em funções. A partir do momento em que Seguro disse isto, o destino de Luís Neves, seja num sentido, seja noutro, está traçado. Uma postura mais musculada, semelhante à que Marcelo tomou no caso de João Galamba, poderia ter consequências imprevisíveis. O Presidente da República tornar-se-ia um fator adicional de instabilidade numa altura em que o país tem um Governo minoritário e fragilizado, que pode inclusive ter dificuldade em fazer aprovar o próximo Orçamento do Estado.

Como é evidente, Seguro está em Belém há apenas seis meses, pelo que será muito prematuro fazer um balanço definitivo. O futuro dirá se Seguro foi o Presidente de que o país precisava neste momento da sua História. E esta não lhe perdoará se deixar um país mais instável e ingovernável do que aquele que encontrou ao chegar a Belém.

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