Um ministro debaixo de fogo

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a

Luís Neves chegou ao Governo envolto numa espécie de estado de graça, recebendo elogios por parte de personalidades dos mais diversos quadrantes. A seu favor, tinha (e tem) as credenciais que conquistou durante uma longa carreira na Polícia Judiciária (PJ). A sua tomada de posse como ministro da Administração Interna (MAI), em fevereiro, foi, por muitos, encarada como se o país tivesse encontrado finalmente alguém capaz de dar estabilidade a uma pasta que, nos últimos anos, tem sido um triturador de ministros. Mas a política não é a polícia.

A Administração Interna é um ministério que desgasta governantes com uma rapidez cruel. Incêndios incontroláveis, problemas crónicos nas forças de segurança, crises inesperadas, disputas partidárias, tudo se mistura num ambiente em que a margem para errar é mínima. Luís Neves, que conhecerá bem este universo, aceitou o desafio com a noção do que teria pela frente. E, sobretudo, com a confiança de quem conhece bem o terreno operacional e os protagonistas das forças de segurança e da proteção civil, de norte a sul do país.

"Luís Neves chegou ao Governo envolto numa espécie de estado de graça, recebendo elogios por parte de personalidades dos mais diversos quadrantes. (...) Mas a política não é a polícia. A Administração Interna é um ministério que desgasta governantes com uma rapidez cruel."
"Luís Neves chegou ao Governo envolto numa espécie de estado de graça, recebendo elogios por parte de personalidades dos mais diversos quadrantes. (...) Mas a política não é a polícia. A Administração Interna é um ministério que desgasta governantes com uma rapidez cruel." FOTO: Nuno Veiga / Lusa

Mas a política tem uma lógica própria, onde a espuma prevalece muitas vezes sobre a substância; e em que a fronteira entre aliados e adversários nem sempre é tão clara como no universo policial. Na PJ, todos sabem, pelo menos em teoria, quem são os polícias e quem são os ladrões. Na política, está longe de ser assim. E, em poucos meses, acumulou-se uma sucessão de episódios em torno do novo MAI.

Primeiro, foi a polémica em torno de um relatório sobre o SIRESP, que gerou ruído desnecessário. Depois, a fuga de informação sobre os planos de um grupo de extrema-direita para atacar a casa do primeiro-ministro. O caso é grave por si só, mas tornou-se ainda mais delicado porque Luís Montenegro soube dos factos pela comunicação social e expressou publicamente o seu desagrado, o que deixa qualquer ministro da Administração Interna numa posição desconfortável.

Agora, surge o episódio das obras que Luís Neves encomendou a um empreiteiro que trabalha regularmente com a PJ. Ao que tudo indica, não houve ilegalidade na conduta de Luís Neves, mas a situação cai numa zona cinzenta que suscita dúvidas sobre eventuais conflitos de interesse. O que, no atual ambiente político inflamado, é suficiente para fazer manchetes e abrir telejornais.

"Cinco meses após a tomada de posse, Luís Neves está debaixo de fogo, embora a época dos fogos ainda esteja a meio. O ministro da Administração Interna tem de recuperar autoridade num ambiente que não perdoa fragilidades.”

Como se tudo isto não bastasse, nos últimos dias André Ventura acusou o ministro da Administração Interna de o ter ameaçado durante um debate parlamentar, pedindo a intervenção do Presidente da República. Luís Neves desmentiu essa acusação lançada pelo líder do Chega, mas a alegação ficou no ar. E se Ventura é um jogador exímio nesse terreno, o ministro foi obrigado a responder a algo que o desgasta.

Assim, cinco meses depois da tomada de posse, Luís Neves está debaixo de fogo, embora a época dos fogos ainda esteja a meio. O estado de graça esfumou-se depressa e o ministro enfrenta agora uma situação desafiante: recuperar autoridade num ambiente que não perdoa fragilidades, enquanto tenta evitar que cada novo episódio se transforme numa crise política.

Os próximos meses dirão se este foi apenas um tropeção inicial. A forma como decorrer o combate aos fogos florestais durante este verão, será, muito provavelmente, decisiva para essa avaliação de um ministro que, ao longo da sua carreira policial, nos habituou a uma abordagem pragmática e focada nos resultados.

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