Luís Neves chegou ao Governo envolto numa espécie de estado de graça, recebendo elogios por parte de personalidades dos mais diversos quadrantes. A seu favor, tinha (e tem) as credenciais que conquistou durante uma longa carreira na Polícia Judiciária (PJ). A sua tomada de posse como ministro da Administração Interna (MAI), em fevereiro, foi, por muitos, encarada como se o país tivesse encontrado finalmente alguém capaz de dar estabilidade a uma pasta que, nos últimos anos, tem sido um triturador de ministros. Mas a política não é a polícia.A Administração Interna é um ministério que desgasta governantes com uma rapidez cruel. Incêndios incontroláveis, problemas crónicos nas forças de segurança, crises inesperadas, disputas partidárias, tudo se mistura num ambiente em que a margem para errar é mínima. Luís Neves, que conhecerá bem este universo, aceitou o desafio com a noção do que teria pela frente. E, sobretudo, com a confiança de quem conhece bem o terreno operacional e os protagonistas das forças de segurança e da proteção civil, de norte a sul do país..Mas a política tem uma lógica própria, onde a espuma prevalece muitas vezes sobre a substância; e em que a fronteira entre aliados e adversários nem sempre é tão clara como no universo policial. Na PJ, todos sabem, pelo menos em teoria, quem são os polícias e quem são os ladrões. Na política, está longe de ser assim. E, em poucos meses, acumulou-se uma sucessão de episódios em torno do novo MAI.Primeiro, foi a polémica em torno de um relatório sobre o SIRESP, que gerou ruído desnecessário. Depois, a fuga de informação sobre os planos de um grupo de extrema-direita para atacar a casa do primeiro-ministro. O caso é grave por si só, mas tornou-se ainda mais delicado porque Luís Montenegro soube dos factos pela comunicação social e expressou publicamente o seu desagrado, o que deixa qualquer ministro da Administração Interna numa posição desconfortável.Agora, surge o episódio das obras que Luís Neves encomendou a um empreiteiro que trabalha regularmente com a PJ. Ao que tudo indica, não houve ilegalidade na conduta de Luís Neves, mas a situação cai numa zona cinzenta que suscita dúvidas sobre eventuais conflitos de interesse. O que, no atual ambiente político inflamado, é suficiente para fazer manchetes e abrir telejornais.."Cinco meses após a tomada de posse, Luís Neves está debaixo de fogo, embora a época dos fogos ainda esteja a meio. O ministro da Administração Interna tem de recuperar autoridade num ambiente que não perdoa fragilidades.”.Como se tudo isto não bastasse, nos últimos dias André Ventura acusou o ministro da Administração Interna de o ter ameaçado durante um debate parlamentar, pedindo a intervenção do Presidente da República. Luís Neves desmentiu essa acusação lançada pelo líder do Chega, mas a alegação ficou no ar. E se Ventura é um jogador exímio nesse terreno, o ministro foi obrigado a responder a algo que o desgasta.Assim, cinco meses depois da tomada de posse, Luís Neves está debaixo de fogo, embora a época dos fogos ainda esteja a meio. O estado de graça esfumou-se depressa e o ministro enfrenta agora uma situação desafiante: recuperar autoridade num ambiente que não perdoa fragilidades, enquanto tenta evitar que cada novo episódio se transforme numa crise política.Os próximos meses dirão se este foi apenas um tropeção inicial. A forma como decorrer o combate aos fogos florestais durante este verão, será, muito provavelmente, decisiva para essa avaliação de um ministro que, ao longo da sua carreira policial, nos habituou a uma abordagem pragmática e focada nos resultados.