O Governo atravessa uma fase de desgaste contínuo, com dois ministros sob pressão intensa, mas por motivos de natureza distinta. O ministro da Educação, Fernando Alexandre, enfrenta críticas por ter tentado reformar um sistema que acabou por falhar no momento decisivo, enquanto Luís Neves, titular da pasta da Administração Interna, lida com suspeitas de alegadas irregularidades que remontam ao período em que dirigia a Polícia Judiciária (PJ). A diferença entre ambos é evidente: um tropeçou numa reforma mal executada; o outro carrega o peso de alegações que tocam o domínio criminal e que estão a ser investigadas pelo Ministério Público. A situação do ministro da Administração Interna é, por isso, a mais delicada. As dúvidas sobre o destino do atrelado com amoníaco, apreendido numa investigação de grande escala ao tráfico de cocaína, colocam a sua autoridade política numa posição frágil. Cada dia sem esclarecimentos reforça a perceção de que o caso não está sob controlo. E quando a matéria envolve potenciais ilegalidades, o silêncio pode fragilizar ainda mais.. Em primeiro lugar, devido à gravidade das suspeitas, nomeadamente às que dizem respeito ao atrelado com amoníaco, apreendido numa megainvestigação a uma alegada rede de tráfico de cocaína, que terá sido confiado a um empreiteiro amigo. Sendo matéria potencialmente do foro criminal, o ministro fica com a sua autoridade política em xeque, a cada dia que passa sem que a situação seja devidamente esclarecida.Em segundo, porque a continuidade de Luís Neves divide o PSD (tal, como de resto, a sua entrada no Governo, dadas as suas credenciais “socialistas”) e, eventualmente, o próprio Executivo. O PSD está, de certa forma, a ferro e fogo, em torno deste assunto. Um facto que Luís Montenegro não poderá ignorar. Porém, tudo indica que o primeiro-ministro tudo fará para “segurar” Luís Neves, à semelhança do que tem feito com outros ministros que atravessam momentos difíceis. E, diga-se de passagem, tem boas hipóteses de o conseguir fazer, porque ninguém deseja verdadeiramente uma crise política neste momento, nem tão pouco uma espécie de embate entre o Parlamento e a Judiciária, com o próprio Luís Neves e outros antigos ou atuais altos dirigentes da Polícia Judiciária a serem obrigados a ir a São Bento explicar, publicamente, os mistérios da Gomes Freire.."Ninguém deseja realmente uma crise política, nem um embate entre o Parlamento e a PJ, com os dirigentes desta polícia a serem obrigados a ir a São Bento revelar publicamente os mistérios da Gomes Freire.”.Resta perceber se, mesmo com estes fatores a seu favor, Luís Neves tem condições para exercer plenamente a função, se a situação se arrastar indefinidamente e se acabar por dar origem a uma comissão parlamentar de inquérito, que o Chega ameaça pedir. A autoridade moral e política de um ministro da Administração Interna não pode estar suspensa à espera de esclarecimentos.O país precisa de respostas claras e rápidas. O Governo também. E o próprio ministro, mais do que ninguém, depende desse esclarecimento para recuperar o espaço de liderança de que precisa para poder exercer as suas funções com a eficácia necessária, para mais em plena época do combate aos fogos.