Trump-Putin-Xi

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Bastou ver a atenção global dada à visita do presidente americano a Pequim, e também dias depois à do presidente russo, com as televisões de todo o mundo a transmitirem as imagens das múltiplas honras oferecidas pelo presidente chinês aos seus dois convidados, para se perceber quem são os homens mais poderosos do mundo: Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping, não necessariamente por esta ordem, até porque o conceito de poder é abrangente.

Vejamos: Trump lidera os Estados Unidos, sem dúvida a superpotência atual, número um na economia, no poder militar (incluindo o nuclear), na ciência (se o critério for a qualidade das universidades, ou os prémios Nobel), na influência cultural, etc; Putin fez o possível e o impossível para recuperar para a Rússia o estatuto de superpotência que pertencia à União Soviética, mas a economia depende demasiado do petróleo e a capacidade militar é limitada, exceto no que diz respeito ao arsenal nuclear; Xi quer ser o líder da próxima superpotência, e não se contenta que a China seja ainda o número dois na economia e também no poder militar (terceiro, ao nível do nuclear).

Todos estes homens sabem que o poder do seu país tem limites: Trump percebeu-o agora ao atacar o Irão, Putin aprendeu-o nestes quatro anos que leva sem conseguir derrotar a Ucrânia, e Xi, que culturalmente está habituado a pensar a longo prazo, tem muitas razões para não tentar a reunificação com Taiwan pela força. A forma como os três líderes se relacionam tem muito que ver com as limitações de cada um, mesmo que se perceba que na relação Estados Unidos-China ainda sejam os primeiros a ter ascendente, que na relação Rússia-China seja cada vez mais a segunda a liderar, e que na relação Estados Unidos-Rússia, a mais difícil de catalogar – sobretudo desde que Trump sucedeu a Joe Biden –, a claríssima vantagem dos primeiros seja sempre atenuada por uma chantagem nuclear que Putin não deixa de insinuar (ou então permite ao seu círculo fazer).

"Bastou ver a atenção global dada à visita do presidente americano a Pequim, e também dias depois à do presidente russo, (...), para se perceber quem são os homens mais poderosos do mundo (...)"
"Bastou ver a atenção global dada à visita do presidente americano a Pequim, e também dias depois à do presidente russo, (...), para se perceber quem são os homens mais poderosos do mundo (...)"EPA

O poder em termos absolutos de Trump, Putin e Xi tem que ver com o poder dos seus países no contexto internacional, mas igualmente com o poder pessoal no contexto interno. E nessa matéria, Trump é o único que tem de dar contas a curto-prazo (nem que seja por haver eleições para o Congresso a meio do mandato); Putin faz eleições, mas não permite verdadeira oposição; Xi manda mais que qualquer líder desde Mao Tsé-tung, fundador da República Popular.

Este poder interno é visível nos anos de governação de cada um: Trump, com um primeiro mandato de quatro anos não-renovado, vai agora quase a meio do segundo, portanto ainda nem sequer seis anos somados; Putin é o homem forte da Rússia desde 2000, mesmo nos quatro anos em que, para respeitar a Constituição, deixou que outro fosse presidente, enquanto ele ficou primeiro-ministro; e Xi, no poder desde 2012, até aboliu o limite de mandatos presidenciais. Dos três, só um tem de lidar com uma imprensa crítica. Obviamente, Trump.

Numa análise cínica da política mundial, diríamos que certa fragilidade de Trump resulta de certa fragilidade dos Estados Unidos, do tal sistema de freios e contrapesos criado pelos Pais Fundadores. Sim, pode ser uma fragilidade que limite Trump, como limitou Biden, e todos os que foram inquilinos da Casa Branca antes dele, a começar pelo próprio Trump entre 2017 e 2021. Mas não é certamente uma verdadeira fragilidade para os Estados Unidos serem uma democracia. A sua ascensão a número um mundial demorou, mas foi imparável, e as previsões de declínio vêm de há muito – há livros, com maior ou menor credibilidade, que previram a ultrapassagem pela União Soviética e o Bloco Comunista, outros pelo Japão do milagre económico pós-Segunda Guerra Mundial. Como hoje se fala da ultrapassagem pela China, o que até parece possível, em termos de PIB absoluto, pois os chineses são quatro vezes mais do que os americanos, mas com a diferença ainda a ser muito grande em termos de per capita.

"O poder em termos absolutos de Trump, Putin e Xi tem que ver com o poder dos seus países no contexto internacional, mas igualmente com o poder pessoal no contexto interno."

Claro, que não pode haver excesso de confiança da parte dos Estados Unidos. As divisões políticas internas debilitam. As tensões com os aliados, sobretudo os da NATO, fragilizam uma aliança que não tem comparação nem na atualidade, nem na História. E a emergência de novas potências, rivais mas envolvidas na globalização, como é o caso da China, questiona se o dólar continuará a ser a moeda de referência mundial. O impasse que se vive no Médio Oriente também pode abalar a imagem de força da América no mundo, mas falta conhecer o resultado final, sem ficarmos presos nos excessos retóricos de Trump e também da liderança iraniana. Tenhamos paciência.

Dentro de pouco mais de um mês, os Estados Unidos celebrarão 250 anos da Declaração de Independência. A Rússia é mais antiga como país, a China muito, muito mais antiga. A história ajuda a compreender as sociedades. E a relativamente breve História dos Estados Unidos dá-nos pistas sobre uma sociedade que tem mostrado uma capacidade de renovação, de transformação, que não depende assim tanto de quem está na Casa Branca. Um líder americano tenderá sempre a ser mais efémero do que um líder russo ou chinês. Isso não significa que a América seja menos poderosa. A liberdade tem dado mais resultados do que o comando absoluto. Há fragilidades (aparentes) que são uma força.

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