Traumas

Paulo Guinote

Professor do Ensino Básico

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Há muitos anos (décadas?) que tenho poucas dúvidas de que boa parte das teorizações e das políticas públicas em Educação resultam da incapacidade de muitos adultos gerirem os seus traumas de infância e adolescência. Ou da necessidade de proclamarem as suas belíssimas intenções aos quatro ventos. Ainda compreendo isso em quem levou em cheio com muitas das iniquidades da Educação durante o Estado Novo. Uma geração que deu um grande contributo para o avanço da Educação desde os anos 70 mas que durante demasiado tempo não percebeu que, para além de algumas aparências, a Escola de hoje não é a de há 50-60-70 anos. E muitas políticas – assim como certas críticas a essas políticas – assentam numa lógica de “a escola antiga é que era toda má/boa”, num maniqueísmo atroz, que se mantém em muitas mentes. Temos os traumatizados pela escola do “antes” e do “depois”, que parecem incapazes de crescer e ultrapassar essas fases da vida.

Há traumas que parecem continuar sem remédio, mais ou menos terapia, mais ou menos medicação. As políticas públicas na Educação (ou em outras áreas) beneficiam muito da experiência dos decisores (e seus influenciadores), mas não tanto da incapacidade de ultrapassar bloqueios psicológicos ou ideológicos. A escola deve ser tolerante e inclusiva mas não por decreto de quem descobriu que tinha colegas que se prostituíam na sua turma. Assim como não o deve ser por mero oportunismo de quem, em privado, é tão ou mais misógino, homofóbico ou racista como aqueles que critica. Apenas envernizando, de forma hipócrita, a imagem pública.

O mesmo para encarregados de educação que não conseguem sair do passado ou que projectam na sua descendência os seus fantasmas, acabando por limitar a construção da identidade de muitas crianças e jovens. Os professores também têm a sua responsabilidade em todo este processo, mas, acreditem, ficam encurralados pelos que, em cima, decretam, e os que, de fora, pressionam, ameaçam, menorizam.

Há uma altura em que devemos ir além das nossas confortáveis convicções, se não queremos marcar de forma muito negativa as novas gerações. Não é fenómeno novo, mas nas últimas duas décadas temos vivido um período negro nessa matéria, quer porque há uma elite de “especialistas” que não consegue descolar do mundo de outrora e já deixou descendência, quer porque há decisores políticos incapazes de evoluir de um pensamento formado há 30 ou 50 anos. O “futuro” para essas pessoas, ainda é o mesmo que era em 1985 ou 1995. Uma elite académico-política que, por causa disso, transmitiu para a sociedade uma série de mensagens equívocas sobre o papel da Educação e dos professores na sociedade. Embora na própria classe docente há quem prefira ter lealdades mais “altas” do que as devidas à própria profissão e tenha dificuldade em criar uma massa crítica própria, o que dificulta muito o quotidiano nas escolas, em especial quando isso se cruza com aqueles interesses pessoais e jogos de poder locais que potenciam a mesquinhez.

Mas... caramba… lidem lá com os vossos traumas de uma vez por todas. A petizada só tem a ganhar com isso, em vez de serem cobaias de quem anda a fazer experiências sociais através da Educação ou ainda não aprendeu o que é uma parentalidade responsável.

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