A história raramente começa pelos extremos, começa por pequenos desvios que vamos aprendendo a aceitar.Atirar tinta a um político pode parecer, à primeira vista, um gesto menor, quase folclórico.Mas não é. É a afirmação de que o adversário deixou de ser alguém com quem se discute e passou a ser alguém que se humilha, que se marca.Porque quando a política deixa de ser confronto de ideias e passa a ser exposição pública à humilhação ou à agressão, algo essencial começa a mudar. A tinta que hoje se atira em nome da indignação abre caminho a algo mais.Porque quando se aceita que o adversário não merece respeito, rapidamente se aceita que não merece sequer segurança. E foi essa fronteira que foi ultrapassada no ataque contra a Marcha pela Vida.E amanhã o ataque poderá ser a um símbolo do Estado? À própria Assembleia da República? Exagero?A Alemanha da República de Weimar oferece talvez o exemplo mais inquietante de como a normalização da violência política pode abrir caminho ao colapso democrático.Nos anos que antecederam a ascensão de Hitler, as ruas eram palco de confrontos e intimidação sistemática. O Estado hesitava, dividia-se e permitia a normalização do que se passava, até que, em 1933, o Reichstag (Parlamento Alemão) foi incendiado. O resto é história.Quando a confiança no Estado de Direito vacila, as pessoas começam a duvidar da capacidade das instituições de garantir segurança, ordem e liberdade.E é assim que sociedades começam a resvalar. Não por um colapso súbito, mas por uma sucessão de pequenos desvios que vão corroendo a confiança nas instituições.É por isso que o ataque contra a Marcha pela Vida não pode ser minimizado, porque mesmo falhando, como felizmente aconteceu, carrega um significado mais profundo. Que alguém que pensa diferente pode ser intimidado, silenciado ou eliminado.E isso é, em si mesmo, uma rutura.E a Democracia não se mede apenas pelo direito de votar, mede-se sobretudo, pela capacidade de garantir que posições divergentes, até profundamente divergentes, coexistem sem medo.Quem se afirma contra o extremismo, contra o autoritarismo e contra o fascismo, não pode permitir, nem por ação, nem por omissão, que se instalem práticas que procuram intimidar, excluir ou silenciar outros.A violência política não fica confinada a quem a pratica, ela gera reação e radicaliza posições.E a história também nos mostra com clareza que os extremos se alimentam mutuamente.Por isso, o que assistimos, é sem sombra de dúvidas um ato de terror político contra a Democracia. E o(s) que perpetuou(aram) este ato de terror, deve(m) ser exemplarmente punidos.Porque a Democracia não cai apenas quando é atacada, cai quando hesita em defender-se.