Terror político na marcha pela vida

Luís Newton

Consultor

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A história raramente começa pelos extremos, começa por pequenos desvios que vamos aprendendo a aceitar.

Atirar tinta a um político pode parecer, à primeira vista, um gesto menor, quase folclórico.

Mas não é. É a afirmação de que o adversário deixou de ser alguém com quem se discute e passou a ser alguém que se humilha, que se marca.

Porque quando a política deixa de ser confronto de ideias e passa a ser exposição pública à humilhação ou à agressão, algo essencial começa a mudar. A tinta que hoje se atira em nome da indignação abre caminho a algo mais.

Porque quando se aceita que o adversário não merece respeito, rapidamente se aceita que não merece sequer segurança. E foi essa fronteira que foi ultrapassada no ataque contra a Marcha pela Vida.

E amanhã o ataque poderá ser a um símbolo do Estado? À própria Assembleia da República? Exagero?

A Alemanha da República de Weimar oferece talvez o exemplo mais inquietante de como a normalização da violência política pode abrir caminho ao colapso democrático.

Nos anos que antecederam a ascensão de Hitler, as ruas eram palco de confrontos e intimidação sistemática. O Estado hesitava, dividia-se e permitia a normalização do que se passava, até que, em 1933, o Reichstag (Parlamento Alemão) foi incendiado. O resto é história.

Quando a confiança no Estado de Direito vacila, as pessoas começam a duvidar da capacidade das instituições de garantir segurança, ordem e liberdade.

E é assim que sociedades começam a resvalar. Não por um colapso súbito, mas por uma sucessão de pequenos desvios que vão corroendo a confiança nas instituições.

É por isso que o ataque contra a Marcha pela Vida não pode ser minimizado, porque mesmo falhando, como felizmente aconteceu, carrega um significado mais profundo. Que alguém que pensa diferente pode ser intimidado, silenciado ou eliminado.

E isso é, em si mesmo, uma rutura.

E a Democracia não se mede apenas pelo direito de votar, mede-se sobretudo, pela capacidade de garantir que posições divergentes, até profundamente divergentes, coexistem sem medo.

Quem se afirma contra o extremismo, contra o autoritarismo e contra o fascismo, não pode permitir, nem por ação, nem por omissão, que se instalem práticas que procuram intimidar, excluir ou silenciar outros.

A violência política não fica confinada a quem a pratica, ela gera reação e radicaliza posições.

E a história também nos mostra com clareza que os extremos se alimentam mutuamente.

Por isso, o que assistimos, é sem sombra de dúvidas um ato de terror político contra a Democracia. E o(s) que perpetuou(aram) este ato de terror, deve(m) ser exemplarmente punidos.

Porque a Democracia não cai apenas quando é atacada, cai quando hesita em defender-se.

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