Só a Ucrânia deve decidir o que é uma paz aceitável

Bernardo Ivo Cruz

Professor convidado UCP/UNL/UÉ

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Steve Witkoff e Jared Kushner, enviados de Donald Trump, estão este fim de semana em Moscovo e seguem depois para Kiev, numa nova tentativa para encontrar uma saída para a guerra na Ucrânia.

Ao fim de quatro anos e meio de guerra, qualquer esforço diplomático credível que fale com russos e ucranianos merece uma oportunidade. Mas procurar a paz não pode fazer esquecer a origem da guerra, nem quem tem legitimidade para decidir os termos do seu fim.

A Ucrânia foi invadida pela Rússia. E a Rússia não é um Estado qualquer. É um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, o órgão a que a Carta atribui a responsabilidade primordial pela paz e segurança internacionais. Um dos garantes dessa ordem violou os princípios que deveria proteger.

Isto não obriga a concluir que a guerra deve continuar até à vitória militar total. Entrámos no quinto ano de um conflito com centenas de milhares de mortos e feridos e milhões de deslocados, sem que nenhuma das partes tenha alcançado uma vitória decisiva. Salvo uma escalada nuclear impensável por parte da Rússia, é cada vez mais difícil imaginar uma solução puramente militar.

Poucos países têm capacidade real para mediar entre Moscovo e Kiev. Só os EUA e a China reúnem peso político, económico e estratégico para influenciar o curso da guerra, e Pequim não demonstrou vontade de se envolver ativamente. Resta Washington e, por isso, devemos desejar sucesso à iniciativa americana, seja qual for a simpatia que tenhamos pela atual Administração.

No entanto, ainda antes de as conversações começarem já havia um sinal preocupante. A sequência das reuniões escolhida pelos enviados americanos importa e não é caso isolado. Witkoff visitou Moscovo pelo menos oito vezes até abril sem nunca ter ido a Kiev, o que Zelensky já considerou uma assimetria “desrespeitosa”. Pode ser apenas logística, mas pode também indicar as prioridades de Washington.

Quando chegarem a Kiev, os americanos já levarão a leitura do Kremlin sobre as condições para terminar a guerra. O risco é que as posições russas se tornem, mesmo que impercetivelmente, o ponto de partida da negociação e Kiev tenha de responder a uma proposta moldada pelas exigências de Moscovo. O processo deveria ser inverso ou, pelo menos, garantir equivalência absoluta entre as duas capitais.

Aconteça o que acontecer a seguir, a UE e os aliados de Kiev têm sido claros: só a Ucrânia decidirá as condições para o fim da guerra. Isso significa que poderemos ter de conviver com um acordo aceitável para os ucranianos que se traduza em ganhos objetivos para a Rússia. Uma paz imperfeita, que não restabeleceria toda a justiça violada pela agressão, nem o Direito Internacional.

Mas essa decisão compete a quem vive há mais de quatro anos a guerra, os bombardeamentos, a morte e a destruição, e não aos EUA, à UE, à Rússia ou a qualquer outro país.

Talvez este fim de semana não signifique a paz e provavelmente não significará. Mas, ao fim de quatro anos e meio de guerra, o simples regresso de uma diplomacia capaz de falar com Moscovo e Kiev deve ser levado a sério. E, como à hora a que escrevo ainda não sabemos o resultado, posso dar-me ao luxo de estar moderadamente otimista. Muito moderadamente.

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