Quero saber quem financia a política, e tu?

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

Publicado a

Há decisões que não fazem barulho imediato, mas que deixam um eco prolongado na qualidade da democracia. Recusar a partilha de informação sobre o financiamento dos partidos é uma delas. Não é um tema mobilizador à superfície, porém, diria eu, toca no nervo central da confiança política.

Para os partidos, as vantagens são evidentes. Menos escrutínio significa maior margem de manobra, já que permite gerir apoios, donativos e relações com financiadores com menor exposição pública, reduzindo o risco de desgaste mediático e de leituras simplistas ou instrumentalizadas. Num sistema político pressionado por ciclos noticiosos rápidos, a opacidade pode parecer uma forma de proteção e, acrescenta-se, também evita que cada contribuição seja imediatamente convertida em suspeita, num ambiente em que a desconfiança se instala com facilidade.

Mas aquilo que protege a curto prazo fragiliza a longo prazo: a democracia vive de confiança, e a confiança exige transparência. Quando os cidadãos não conseguem perceber quem financia quem, abrem-se espaços para a suspeita, para a ideia de que existem interesses ocultos a condicionar decisões públicas. Mesmo que não existam, a simples possibilidade mina a credibilidade do sistema. E uma democracia sem credibilidade entra num terreno perigoso, no qual o populismo encontra alimento fácil.

Existem boas-práticas internacionais que apontam noutro sentido, veja-se o que fazem tantos outros países por esse mundo fora. Existem opções claras de transparência ativa com a divulgação acessível e compreensível das fontes de financiamento. Mais: existe a prática de realizar auditorias independentes e regulares. E ainda uma definição rigorosa de limites para donativos individuais e empresariais. E, sobretudo, existe uma cultura de prestação de contas que não é tão somente formal, é assumida como parte integrante da ética política.

A política exige responsabilidade acrescida, porque lida com o interesse público e, por isso, os códigos de conduta devem ser claros, os mecanismos de fiscalização eficazes e deverá existir comunicação frontal sobre financiamento. Nada disto é acessório, são condições mínimas de legitimidade. Digo eu e não creio que esteja sozinha.

Diário de Notícias
www.dn.pt