Quando pensamos em Eisenstein

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Por estes dias, consultando a página da Rússia no catálogo online da Bienal de Veneza, encontramos esta informação: “À data de publicação da atual edição deste catálogo, a participação da Rússia encontra-se em análise face ao quadro regulamentar aplicável.” A situação decorre do facto de a Bienal ter decidido voltar a acolher a participação russa, pela primeira vez desde o início da invasão da Ucrânia, em 2022 – previa-se, assim, que o Pavilhão Russo abrisse a 9 de maio (o que aconteceu), funcionando até 30 de setembro; agora, a Comissão Europeia revogou o apoio de 2 milhões de euros à Fundação La Biennale di Venezia, através de uma decisão formalizada, na terça-feira, pela Agência Executiva Europeia para a Educação e Cultura. A Fundação anunciou que vai apresentar recurso contra a decisão.

O retorno da Rússia à programação da Bienal já suscitara muitas reações de condenação, desde logo por parte do governo ucraniano. Para o Executivo europeu, os eventos culturais apoiados pela União “devem promover e proteger os valores democráticos, o diálogo, a diversidade e a liberdade de expressão” – ora, tais princípios “não são respeitados na Rússia de hoje”.

O assunto justifica alguma reflexão, tentando pensar contra os maniqueísmos de muitos discursos políticos que se aproveitam da gritaria mediática para reduzir o mundo a uma terra de ninguém dividida por uma barricada que separa os “puros” dos “impuros”. Num livro que já fez 30 anos (La Pureté Dangereuse, ed. Grasset, Paris, 1994), Bernard-Henri Lévy refletia sobre essa “pureza perigosa” que, nos anos finais do século XX, ameaçava o edifício democrático. Depois de guerras movidas por agentes de alguma espécie de “purificação” (Ruanda, Bósnia, etc.), Lévy dava conta da dificuldade com que os regimes democráticos europeus enfrentavam os fantasmas muito concretos que os assombravam: “Como se a democracia fosse, para o pensamento, o objeto mais obscuro, ou até o mais interdito.”

'Ivan, o Terrível' (1945), de Sergei Eisenstein.
'Ivan, o Terrível' (1945), de Sergei Eisenstein. FOTO: Arquivo

Pensar a interdição da Rússia na Bienal de Veneza não é o mesmo que branquear, ainda menos legitimar, a invasão da Ucrânia pelo regime dirigido por Vladimir Putin. Trata-se, aliás, de começar por aí, dizendo que a violência que as tropas russas continuam a exercer contra o povo ucraniano, além de politicamente obscena, é imoral. Acrescentando uma pergunta: que pensamento estamos a induzir quando a condenação de uma guerra se “transforma” no apagamento público do trabalho artístico?

Será que faz sentido especular sobre a “mensagem” das obras que integram o Pavilhão Russo? Dir-se-ia que a ideologia do VAR do futebol, enchendo de alegria os que consideram que a deteção de um calcanhar fora de jogo devolve ao desporto a sua pureza “original”, passou a ser uma lei do pensamento – inclusive para o domínio artístico. Como se a história da arte fosse um catecismo de coisas imaculadas. Afinal de contas, um dos génios absolutos da história do cinema, Sergei Eisenstein (1898-1948), autor de obras como O Couraçado Potemkine (1925), Alexandre Nevsky (1938) e Ivan, o Terrível (1945), recebeu, por duas vezes, uma distinção com o nome de um ditador sanguinário (Prémio Stalin, 1941, 1946). Será que os anjos da purificação politicamente correta arriscam pensar no assunto?

Aplicando uma expressão que, perante a indiferença das esquerdas e direitas da Europa, foi totalmente deturpada dos seus valores clássicos, podemos dizer algo em favor da arte, ou melhor, da circulação dos objetos artísticos. A saber: tal circulação já existiu como uma verdadeira rede social.

Mesmo condenando energicamente a guerra montada e comandada por Putin, será que nos podemos dar ao luxo de ignorar as singularidades da arte? Será que passou a existir um novo princípio de purificação política indiferente ao modo como, com maior ou menor exuberância, com muito ou pouco talento, as manifestações artísticas fazem parte do modo como sentimos e pensamos? Em que medida a arte é, ou pode continuar a ser, uma forma de relação com os outros?

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