Quando o 'true crime' inspira o crime verdadeiro

Helena Tecedeiro

Editora-executiva do Diário de Notícias

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Uma coisa é gostar de ver a série Homicídios ao Domicílio e rir-se com as aventuras de Mabel Mora e dos seus velhos (literalmente) amigos Charles-Haden Savage e Oliver Putnam. Outra ainda é apreciar podcasts de true crime, como as personagens interpretadas por Selena Gomez, Steve Martin e Martin Short. Mas algo muito diferente – e perigoso – é ser seguidor da True Crime Community (TCC), uma rede de comunidades virtuais que glorifica autores de massacres e, em alguns casos, incentiva a violência extrema.

Suspeita-se que seja o caso do aluno de 14 anos que na segunda-feira disparou sobre uma professora e sobre o diretor de um colégio em Aubagne, não muito longe de Marselha. Detido e colocado em detenção provisória, o adolescente não negou ser o autor dos disparos, mas rejeitou ter intenção de matar. E admitiu, segundo a Radio France Internationale, ter sido influenciado pela True Crime Community.

Mas o que é esta comunidade? Composta por fãs de tiroteios e assassinos em série, esta subcultura ganhou dimensão depois do massacre de Columbine. Em 1999, dois alunos entraram no liceu daquela cidade, no estado americano do Colorado, e mataram a tiro 12 alunos e um professor. Além do tiroteio, o ataque envolveu também bombas de fabrico caseiro colocadas na escola, as maiores das quais não chegaram a explodir.

Esta comunidade de admiradores dos autores do massacre, e de outros criminosos, chegou à Europa no início do milénio e ganhou dimensão na década de 2010, tendo-se espalhado por vários países, impulsionada pelo crescimento das plataformas online. Mas o fenómeno cresceu durante a pandemia, aproveitando-se do isolamento social e da consequente vulnerabilidade, sobretudo dos mais jovens. Segundo Alexandre Rodde, especialista em terrorismo ouvido pelo jornal Libération, os alvos da rede são adolescentes entre os 13 e os 18 anos.

Voltando ao ataque de Aubagne, este é, segundo Rodde, o segundo do ano, em França, ligado à True Crime Community, depois de La Rochelle, em março. No mundo, foram já uma dúzia de ataques ligados à TCC desde o início de setembro – dos Estados Unidos à Polónia, da Turquia à Croácia.

No caso do atacante do colégio de Aubagne, as buscas em casa dos pais revelaram a existência de várias contas nas redes sociais e confirmaram, segundo as autoridades antiterroristas, a “provável adesão à TCC”.

Quem tem filhos, sobretudo adolescentes, sabe como é difícil controlar o que andam a fazer online. Longe de ser só uma comunidade de inofensivos apreciadores de podcasts de crimes reais, esta True Crime Community é só mais uma das muitas armadilhas virtuais às quais todos, pais e autoridades, precisamos de estar atentos. Para garantir que o true crime não inspira novos crimes e assegurar a segurança dos nossos jovens e não só.

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