Há um ditado popular que encaixa na perfeição num dos momentos mais comentados e vistos nos últimos dias: “Faz o que digo, não faças o que faço.”Podemos usar esta expressão para criticar um vídeo divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro, Luís Montenegro, em que este surge no carro em andamento sem cinto de segurança. Aliás, as imagens deixam logo de início uma questão: será que ninguém na equipa autora do “documentário sobre um dia na vida do líder do Governo” reparou que estava a gravar uma contraordenação rodoviária? E que depois da denúncia também não houve um pedido de desculpas pelo erro?Num país onde as estatísticas anuais mais recentes – divulgadas no Relatório Anual de Segurança Interna e que referem ter sido detetadas no ano passado 22.185 infrações pelo não-uso de cinto de segurança e sistemas de retenção, em comparação com os 19.008 autos em 2024 – mostram que há cada vez mais pessoas a não usar esse sistema que ajuda a salvar vidas em caso de acidente, o que se pode dizer do exemplo gravado e divulgado? Julgo que nada de bom...A piorar a situação, tudo isto aconteceu durante a Operação Páscoa (11 a 21 de abril), um período em que a PSP e a GNR registaram 2602 acidentes, de que resultaram 20 mortes, 53 feridos graves e 845 menos graves. No período homólogo do ano passado morreram cinco pessoas nas estradas nacionais.Ou seja, estamos perante um problema grave, tanto que o Ministério da Administração Interna, no mesmo dia em que os dados provisórios das forças de segurança foram conhecidos, divulgou um comunicado a garantir que em breve vai ser apresentado um “pacote de medidas estratégicas, a médio e longo prazo, e outras mais imediatas”. Num documento onde volta a ser frisado o que todos sabemos há anos: uma parte dos automobilistas nacionais continua a ter comportamentos de risco - condução sob efeito de álcool, excesso de velocidade e o uso indevido do telemóvel durante a condução.Portugal tem uma Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária 2021-2030 - Visão Zero 2030 cujo objetivo é atingir as zero mortes e feridos graves nas estradas nacionais até 2030. Uma ambição para a qual todos devemos contribuir, nem que seja colocando o cinto de segurança antes de iniciar uma viagem. Ao contrário dos exemplos que vamos vendo..Mudar mentalidades para chegar à “visão zero” .Ao volante e de olhos no ecrã. É só irresponsável