Ao volante e de olhos no ecrã. É só irresponsável

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Numa noite da semana passada tive de percorrer a 2.ª Circular, em Lisboa. Um situação rotineira e sem dificuldade - apesar de haver algum trânsito. A viagem estava tranquila até determinado momento quando um carro que circulava um pouco à frente começou a andar aos ziguezague entre faixas de rodagem. Quando a situação normalizou foi possível ultrapassá-lo e perceber o que se estava a passar.

E a descoberta foi, mais ou menos, surpreendente: o condutor estava a ver um vídeo no telemóvel colocado num suporte preso ao tablier, enquanto seguia por uma das estradas mais utilizadas de Lisboa, mesmo àquela hora. O que se pode dizer sobre uma atitude destas? Irresponsável? Ou pior?

Numa altura em que há inúmeros alertas para os perigos de conduzir e usar o telemóvel, com várias ações de fiscalização tanto da Polícia de Segurança Pública como da Guarda Nacional Republicana, com o apoio da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, ainda se encontra pessoas que estão mesmo a “jogar com a sorte”.

Na segunda-feira, portanto já depois da situação que testemunhei, a PSP divulgou dados sobre as suas ações relacionadas com o utilização de telefone ao volante durante o ano passado. E o resultado é elucidativo: 6026 infrações, um aumento de 952 em relação a 2024. Ou seja, 17 por dia.

A mensagem deixada aos automobilistas também não podia ser mais clara: “A utilização do telemóvel, durante a condução, aumenta em quatro vezes o risco de acidente” ou “utilizar o telemóvel, durante a condução, provoca um aumento no tempo de reação a situações imprevistas superior ao efeito de uma taxa de álcool no sangue de 0,8 g/l”.

Se juntarmos as estatísticas desde 2023 a 2025, de acordo com a PSP, ficamos a saber que se registaram 12.215 acidentes em que se comprovou que a distração ao volante - onde se inclui o uso de telemóvel - foi a causa.

A verdade é que, pelos dados conhecidos, as coimas entre os 250 e os 1250 euros, a perda de três pontos na Carta de Condução e a proibição de conduzir entre um a 12 meses não são suficientemente dissuasores. Nem os lemas das campanhas, como a que terminou no início da semana: “Ligue-se à vida - não ao telemóvel”.

A questão da utilização dos telefones a conduzir é importantíssima e deveria merecer ainda mais atenção. Isto num país em que, segundo dados da ANSR de janeiro a setembro de 2025, no Continente e nas Regiões Autónomas, foram registados 28.975 acidentes com vítimas, 337 vítimas mortais, 2161 feridos graves e 33.976 feridos menos graves.

Este é um debate que tem de ser mais forte. Afinal, não estamos a referir-nos só a números: cada um representa uma pessoa. Até quando vamos aceitar isto como inevitável?

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