Agosto costuma ser o mês em que acontece pouco. Os políticos tendem a desaparecer, os parlamentos fecham e os jornais, privados de grandes acontecimentos, procuram nas margens da realidade qualquer coisa minimamente relevante para ocupar uma página. É a boa e velha silly season, termo tradicional da imprensa britânica que há muito se globalizou.É também a época mais arriscada para se ganhar protagonismo. Quem, por azar ou inépcia, fica exposto ao sol mediático de agosto tem exponencialmente mais hipóteses de sair queimado, por falta de concorrência no tempo de antena. É o que tem acontecido com Luís Neves, e não por causa do tema que seria naturalmente mais arriscado nesta época do ano: os incêndios andam aí em quantidade suficiente para fazer deste o segundo ano com mais terra queimada desde a fatalidade de Pedrógão, mas felizmente sem grandes tragédias humanas a registar até agora. Mais do que a sua atuação como ministro da Administração Interna, é o seu passado como diretor nacional da PJ que tem ressurgido para incendiar este verão, numa sucessão de casos que culminou esta última semana com a decisão da ministra da Justiça de mandar auditar a sua liderança na polícia de investigação. Luís Neves bem pode esquecer este ano o conceito de umas férias descansadas. Para ele, a prioridade será mesmo sobreviver ao verão.Só o seu colega de Governo Fernando Alexandre mostrou alguma "solidariedade" e resolveu arranjar também uma bela trapalhada de verão que, além das dele, conseguiu estragar as férias a uns bons milhares de famílias. O espírito “tech bro” da Educação não lhe correu particularmente bem e os erros na digitalização dos exames nacionais acabaram por obrigar muita gente a fazer horas extraordinárias para concluir a saga das avaliações, com o Governo a garantir que nenhum aluno será prejudicado. Com Luís Neves a dominar as atenções, pode ser que Fernando Alexandre consiga ainda um tempinho livre para uma ida à praia, como fez o primeiro-ministro.Apesar de ter decidido não tirar férias este verão, Luís Montenegro não resistiu a uma escapadinha para um mergulho nas águas do Algarve e foi apanhado pela teia da silly season, que rapidamente transformou uma toalha estendida ao sol numa potencial questão de Estado.Quem deve estar a viver o seu melhor verão desde que chegou ao Governo é Ana Paula Martins. Não é que a Saúde tenha subitamente deixado de ter problemas, mas finalmente descobriu o prazer de já não ser a ministra de quem todos falam. Certamente não se esquecerá de incluir Luís Neves nos postais de férias a enviar.